Luan surge ao som do rap
A passagem de Luan pela zona mista de imprensa, no fim da partida com a Alemanha, foi dos assuntos mais comentados pelos jornalistas brasileiros e estrangeiros.
A chegada do jogador do Grêmio foi anunciada pelo som de uma música dos MC Racionais, que ecoou pela porta do vestiário afora. Luan surgiu abraçado a Gabriel Jesus, levando nas mãos um sistema de som tão pequeno quanto poderoso. Os dois sorriam e acenavam para os jornalistas. Não deram entrevistas; cantaram. Diante das luzes fortes das TVs, pararam e entoaram um trecho de um rap, mostrando as medalhas de ouro para as câmeras:
_ É preciso acreditar que o sonho é possível! Brasil!
E se foram, gingando.
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FARÁ BEM OU FARÁ MAL?
Luan não será o mesmo, depois dessa experiência na Seleção. Ele foi o jogador que deu fluência e lógica ao meio-campo. Conseguiu fazer o enlace da defesa com o ataque e amaciou a bola com seu jogo fácil. Mas, além disso, Luan fez novas amizades e conheceu outra realidade. Se será bom ou ruim para o Grêmio, se será bom ou ruim para ele próprio, é o que se verá.
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DOIS ABNEGADOS
Luan tornou Neymar possível. Gabriel Jesus e Renato Augusto tornaram Luan possível.Renato Augusto, que sempre foi meia e até goleador, teve a humildade e a sabedoria de jogar recuado, como volante, e o fez com o empenho dos que precisam do salário para sobreviver. Dividiu, combateu, trombou com os bárbaros germânicos. Às vezes ele foi um Caçapava diante da área, permitindo que Wallace se aventurasse no ataque; às vezes ele mesmo investiu pelo terreno inimigo, como aos 19 minutos do segundo tempo, quando arrancou da defesa feito um tanque Panzer e foi espalhando alemão para todos os lados, até servir Gabriel Jesus dentro da área.
Esse outro, Gabriel Jesus, chegou a jogar de lateral, tamanho o seu esforço em ajudar o time. Sentiu câimbras, de tanto correr. Um atacante, uma estrela nova, um goleador ter essa abnegação é algo raro.
Mais do que a habilidade ou a técnica, o comportamento de Gabriel Jesus e de Renato Augusto é um sopro de novidade no futebol brasileiro.
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WALACE, O ESTRANHO
Walace, ao contrário de Luan, comportou-se com fleuma de jogador de xadrez, depois da vitória.
Enquanto os outros jogadores pulavam, cantavam, choravam e gesticulavam para a torcida nas proximidades da área em que foram cobrados os pênaltis, Walace afastou-se, sozinho, e foi até a lateral do gramado. Sentou-se no chão e lá ficou. Só ele, mais ninguém.
Depois de três ou quatro minutos, levantou-se e caminhou para a linha de fundo, devagar e distraidamente, como se estivesse passeando de mão no bolso. Seguiu sem a menor pressa, parando atrás do gol. Olhou, então, para a torcida, como se procurasse alguém. Estava mesmo. Perguntei a ele, depois da partida, e ele disse que queria ver seu filho, que é nenê ainda. Viu. Minutos depois, carregava-o no colo.
Conversei com Walace sobre sua atitude serena naquele momento tão emotivo e ele não fez muito caso:
_ Ah, acho que não tinha caído a ficha ainda...
É a suave alegria da Bahia.