A herança maldita está de volta
Michel Temer fecha a primeira semana no comando do Planalto acumulando erros, dois grandes acertos e apelando para a velha estratégia da herança maldita como justificativa às medidas duras que vem por aí. O rombo nas contas públicas foi revelado para preparar os ânimos. Segurem-se! A partir de segunda-feira, o Congresso recebe a proposta de mudança na meta fiscal e começará a ser alimentada a necessidade de um imposto provisório para cobrir despesas inadiáveis. O Rio Grande do Sul do governador José Ivo Sartori já viveu esse momento: é a sartorização do discurso. Uma estratégia que pode funcionar, mas tem data de validade.
Se o governo não colocar rapidamente na rua medidas de recuperação da economia e, se não cortar na carne, perderá a credibilidade. O início da administração de Michel Temer já foi complicado. Como já era esperado, a Lava Jato chega a um dos principais ministros, Romero Jucá (Planejamento). O STF autorizou a quebra do sigilo bancário e fiscal. Um escândalo maior é questão de dias. A escolha de um líder do governo na Câmara investigado por suspeita de homicídio também é surreal. A grande credencial de André Moura (PSC-SE) é ser aliado do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). É assim, no entanto, que Temer costura a aprovação de tudo o que precisa no Congresso.
Para compensar, a equipe econômica é um timão. Não tem neófito na órbita do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. É como se o governo fosse dividido em duas partes: a área econômica - com o apoio eficiente do núcleo duro do Planalto - e o restante. A cereja do bolo foi a escolha do ex-ministro de FHC, Pedro Parente, para o comando da Petrobras. A confiança dos mercados começa a ser recuperada.
Temer entra no baile de maneira ousada, falando de reforma da Previdência. Mas se fizer um ajuste fiscal mínimo, resgatar a inflação e sinalizar com aumento de emprego, estará mais do que no lucro.
Cunha faz escola
Mesmo que o presidente da Câmara afastado, Eduardo Cunha, tenha o mandato cassado, ele já fez escola. A defesa aberta de projetos conservadores e o estilo agressivo de fazer política são colocados em prática por pupilos. Integrantes do chamado centrão (bloco de partidos como PP, PSD, PR, PRB e PTB) não têm pudor de negociar cargos por apoio em plenário, ameaçam e fazem chantagem. Se o Cunha sair, há um candidato a novo herói do baixo clero emergente: é o líder do PTB, Jovair Arantes (GO). Na foto, ele está à direita do ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), em entrevista de estreia no Planalto.
O deputado José Fogaça (PMDB-RS) chama esse fenômeno de ¿cunhismo sem Cunha¿. Profundo conhecedor do regimento, o presidente afastado mostrou que pode conduzir o plenário com mão de ferro e emplacar os seus interesses, mesmo criticado pelo envolvimento em falcatruas. Os deputados fazem questão de manter a independência que conquistaram em relação ao Planalto. Foi assim que conseguiram confirmar o nome de André Moura (PSC-SE) para líder do governo na Câmara. DEM e PSDB ficaram de fora, paralisados pela estratégia. O PT não sabe se ri ou se chora.
EX-AMOR
Uma semana depois do afastamento do governo, a presidente Dilma continua magoada com o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo. Ela reclama com interlocutores que ele conseguiu se reeleger, em boa parte, graças aos investimentos federais em obras no Estado. Na hora da votação do impeachment, no entanto, Colombo liberou dois dos seus secretários para voltarem à Câmara e votar contra a presidente.
RECOLHIDO
Cercado pelas investigações da Polícia Federal, o ex-presidente Lula se limitou a conversar com Dilma por telefone. Durante a semana, quem fez o meio de campo entre o ex-presidente e os demais petistas foi o ex-ministro Jaques Wagner, que deixou Salvador por uns dias para servir de interlocutor de Lula em Brasília.
OLIMPÍADAS
Responsável pela segurança das Olimpíadas, o gaúcho Andrei Rodrigues permanecerá à frente da Secretaria Especial de Segurança para Grandes Eventos. Já houve reuniões com o presidente interino, Michel Temer.
DA MOTO PARA O FACE
Ex-ministro da Previdência, Carlos Gabas está pronto para começar uma dura oposição ao governo Temer, reclamando da extinção da pasta que cuida das aposentadorias. Ele reclama que a pulverização vai promover a desorganização do sistema. Gabas não era favorável à união da Previdência com o Trabalho, promovido por Dilma:- Na época eu alertei para as dificuldades desta área.Conhecido por levar a presidente afastada para passeios de moto por Brasília, Gabas vai começar a despachar a partir da próxima semana de uma sala no Palácio da Alvorada. Ontem, ele já cumpriu expediente no bunker da resistência, participando do bate papo no Facebook ao lado de Dilma.
Foto: Roberto Stuckert Filho/ PRQUEM QUER CPMF?
A Associação Gaúcha para o Desenvolvimento do Varejo (AGV) vai fazer uma nova pesquisa junto à bancada gaúcha sobre a CPMF. No início do ano, levantamento semelhante revelou que 14 deputados e todos os senadores eram contra a volta do imposto (veja abaixo a posição da bancada gaúcha no Congresso). Será que mudaram de opinião? A AGV também questionou os associados sobre expectativas a respeito do governo Temer. Das alternativas, 83,9% tem como prioridade a reforma tributária e 74,2% a Política.
Contra a CPMF – 14 deputados e 3 senadores
Affonso Hamm (PP)
Alceu Moreira (PMDB)
Covatti Filho (PP)
Darcísio Perondi (PMDB)
José Fogaça (PMDB)
Heitor Schuch (PSB)
Jerônimo Goergen (PP)
João Derly (REDE)
José Otávio Germano (PP)
José Luiz Stédile (PSB)
Luis Carlos Heinze (PP)
Nelson Marchezan Júnior (PSDB)
Onyx Lorenzoni (DEM)
Renato Molling (PP)
Ana Amélia Lemos (PP)
Lasier Martins (PDT)
Paulo Paim (PT)
A favor da CPMF – 8 deputados
Bohn Gass (PT)
Fernando Marroni (PT)
Henrique Fontana (PT)
Marco Maia (PT)
Marcon (PT)
Maria do Rosário (PT)
Mauro Pereira (PMDB)
Paulo Pimenta (PT)
Indecisos – 9 deputados
Afonso Motta (PDT)
Carlos Gomes (PRB)
Danrlei de Deus (PSD)
Giovani Cherini (PDT)
Luiz Carlos Busato (PTB)
Osmar Terra (PMDB)
Pompeo de Mattos (PDT)
Ronaldo Nogueira (PTB)
Sérgio Moraes (PTB)