Inspirada em brasileira, tatuadora ajuda russas vítimas de violência
“Já faço tatuagens há dez anos. Eu desenhava muito, depois comecei a tatuar também. A vida de tatuadora é bem divertida, comunicativa, despreocupada. Sempre tem alguém frequentando o estúdio, cliente agradecido insistindo para a gente ir a alguma festa.
Resumindo, viver ali é uma festa. Mas me deparei com um artigo sobre a tatuadora brasileira Flávia Carvalho, que cobre cicatrizes de vítimas de violência doméstica, e pensei: por que não tentar eu mesma fazer isso?
Evguênia já tatuou mais de uma centena de mulheres nessa situação na Bachquíria / Foto: Vadim Braidov
Vivendo no meu mundinho pacífico e feliz, eu não podia imaginar que tantas mulheres estão sujeitas à violência doméstica. Já recebi cerca de 100 clientes e entendo que elas vêm, principalmente, para contar suas histórias, derramarem essas histórias no divã. Isso tudo para quando se levantam dele não lembrar nunca mais.
Escutei tantas histórias que dava para escrever um livro. Tento ser amiga delas – e acho que consigo, pois muitas vêm, me trazem doces, ou aparecem só para bater um papo.
Elas me dizem: ‘Você nos fez sentir dor por uma hora para que nós esquecêssemos da dor que suportamos por anos’.
"Escutei tantas histórias que poderia escrever um livro. Elas vêm, sentam no divã e desabafam, para quando se levantarem não lembrarem nunca mais" / Foto: Vadim Braidov
Recebi cartas de todos os cantos da Bachquíria. Mais jovens ou mais velhas, calmas ou nervosas, todas se unem em uma coisa: a dor. Cada uma delas me disse que não consegue olhar para suas cicatrizes, que elas lhes lembram o dia em que seus companheiros levantaram a mão para elas.
Apesar de eu cobrar entre dois e quatro mil rublos por tatuagem (entre R$ 100 e R$ 200), não posso receber dessas mulheres. Foi assim que meus pais me criaram.
Quem tiver dinheiro pode pagar, mas do contrário não. Ainda tenho muitas clientes para esse serviço. Infelizmente, a violência é como uma guerra: eterna.”
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