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O parque nosso de cada dia

Antes de tudo, o mais importante: “Parque cultural” é um livro muito engraçado. Ainda que não seja exatamente uma sátira, não passam duas ou três páginas sem a gente dar uma boa gargalhada. Às vezes uma frase inusitada paralisa a leitura. Dá para duvidar que o narrador, um escritor excêntrico que vive à margem do sistema soviético, realmente falou aquilo. Outras vezes a situação toda é tão bizarra que exige uma releitura, precoce mas saborosa, para confirmar que aquilo mesmo está acontecendo. Esse trecho é um bom exemplo:

“Os policiais ficaram no corredor por cerca de uma hora. Um deles gritou no buraco da fechadura:

- Dê explicações sobre as seguintes cláusulas do Código Penal: manutenção de prostíbulo, parasitismo, insubordinação às autoridades...

Eram tantas cláusulas que decidi não pensar no assunto.”

A trama de “Parque cultural”, primeiro livro de Serguei Dovlátov (1941–1990) publicado originalmente em 1983 e agora no Brasil pela editora Kalinka, é bastante simples e pode ser resumida em poucas palavras. Passando por crises de várias naturezas (afetiva, profissional, existencial, física, jurídica e todas as outras), o citado escritor procura um emprego como guia em um local estranho e interessante, um parque em que tudo dentro diz respeito à obra e à vida de Aleksándr Púchkin. 

Fonte: Divulgação

Só isso, obviamente, já é bastante nonsense, embora esse tipo de lugar não seja tão incomum. Alguns anos depois do fim das ditaduras comunistas, visitei um parque na Hungria onde tinham ficado guardadas todas as estátuas e monumentos que o antigo regime espalhara pelo país. Em troca de um ingresso, podíamos ver um Marx de cinco metros ao lado de um Stálin ainda maior e de um parrudo Lênin. Os países capitalistas também adoram esse tipo de coisa: a Disneylandia recria a vida de mitos da indústria do entretenimento, para registrar o exemplo mais óbvio. Até um artista misterioso e engajado como Banksy fez seu parque de diversões perto de uma região de refugiados na França.

Independentemente de suas intenções, esses lugares são por si mesmo bizarros. Com funcionários afastados das convenções sociais, tornam-se um chão quase surrealista. A isso é preciso acrescentar que a Disneylandia de Púchkin funciona em um regime político completamente baseado no cumprimento de regras, na organização burocrática e na obediência acrítica. Parque cultural, portanto, é um lugar fora da ordem normal da sociedade.

Aos poucos, o escritor recém-chegado ambienta-se ao parque. Isso não quer dizer que a situação se normalize. Ao contrário, ele contamina tudo ao seu redor e passamos a ver a paisagem através de sua visão, na maior parte das vezes bêbada e irreverente. A partir da metade do texto, estamos convencidos de que aquele mundo alucinado, engraçadíssimo e quase inverossímil cobre todo o território soviético.

Não é bem isso, porém. Parque cultural tem várias surpresas e não vou estragar nenhuma delas. Mas quando a loucura já atingiu níveis inclassificáveis, o narrador e as personagens começam a discutir o mundo soviético. Aqui está por exemplo a descrição que o narrador faz de um típico representante da elite: 

“Poderia passar por doente mental não fosse o sorriso triunfante e a expressão burlesca. Uma espécie de descaramento astuto e sagaz transparecia em seus discursos lunáticos, um misto nauseante de cabeçalhos de jornais, slogans e citações desconhecidas.

Parecia um alto-falante quebrado. O rapaz se expressava de modo claro, pausado, com ênfase doentia e certa força dramática...”

Em meio a uma conversa mais exaltada, lemos o seguinte: 

“ – Quero liberdade! Quero a arte abstrata e o dodecafonismo!... Vou dizer-lhe uma coisa...”

Esse tipo de coisa é dito quando tudo já tinha atingido um patamar enorme de nonsense. De repente, lemos uma crítica violenta à opressão soviética, já que a realidade ali parece muito mais impensável do que toda a loucura do parque dedicado a Púchkin. Os verdadeiros malucos, assim, são os que vivem no mundo do lado de fora.

Deixar os loucos mostrarem como os pretensos normais são ainda mais loucos não é o único recurso que Dovlátov usa para intensificar sua crítica à ditadura soviética. O livro é dominado por diálogos. Além deles, lemos também muita descrição. Por estarmos dentro de um parque, não poderia ser diferente. Há aqui uma sutileza, porém: diálogos com cenários na verdade compõem o ambiente teatral. O parque, portanto, é só um palco e os funcionários, atores representando um papel. O leitor, completando a fauna, faz o papel do público. 

A crítica se torna ainda mais pesada: acabada a peça, virada a última página do livro, os atores que julgávamos apenas um bando de malucos, voltam ao seu estado real. Já o público que sai do teatro vai ter que enfrentar a realidade da era Brejnev. De novo, de fato louco mesmo é o dia-a-dia debaixo desse ambiente.

Apesar de trabalhar com recursos narrativos completamente distintos, dá para aproximar Dovlátov da literatura de Svletana Aleksiévitch. Os dois acumulam discursos cujo principal efeito é mostrar como a violência política que vem das decisões distantes da vida cotidiana afeta o cidadão comum. 

Por fim, vale ressaltar que o narrador se aproxima, com triste força, do próprio autor. Isso, obviamente, exige nova correlação: assim, o ambiente do livro está mais uma vez colado à vida soviética. Não quero dizer aqui que o livro representa o universo da ditadura comunista. Mais do que isso, ele o denuncia, usando os recursos da literatura com rara eficácia. Só não vou me deter nesse ponto, pois como estou apresentando o primeiro livro de Dovlátov no Brasil, acho mais importante usar o espaço para falar do próprio romance, que de fato é muito bom.           

Ricardo Lísias é escritor, autor de entre outros “Divórcio” e “A vista particular”, ambos publicados no Brasil pela editora Alfaguara.

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