Ainda correndo aos 119 anos? Vamos com calma
Perth, Austrália – Para a competição dos cem metros, o nome mais surpreendente na lista de participantes não era o de Usain Bolt, mas o que falta em renome ao indiano Dharam Pal Singh, ele mais do que compensa como homem misterioso internacional.
Se Singh tinha mesmo 119 anos, nascido em seis de outubro de 1897, como dizia seu passaporte, sua presença no Campeonato Mundial de Atletismo Masters era extraordinária – e faria dele não só o corredor mais velho de que já se tem notícia, mas talvez o homem mais velho do mundo.
O problema é que muita gente não acredita em sua história.
"Desconfiamos que esteja mentindo sobre a idade", admite Vinod Kumar, secretário adjunto da Federação de Atletismo Masters da Índia.
Segundo o Dr. Thomas T. Perls, especialista em centenários de Boston, a idade mais avançada confirmada de um homem foi 115. A pessoa confirmada como a mais velha do mundo foi Jeanne Calment, uma francesa que morreu em 1997, aos 122 anos.
Baseado em sua experiência, o diretor do Estudos Centenários da Nova Inglaterra, do Centro Médico de Boston, é categórico. "Noventa e nove por cento das alegações de idade avançada, acima dos 115, são falsas."
"As chances de Singh ter 119 e ser um corredor competitivo são as mesmas de se construir um foguete que chegue a Plutão. É inconcebível."
"Mas mesmo que tenha, vamos dizer, uns 90, e continue correndo, ainda assim é um fato espetacular", acrescenta.
Singh nega aumentar a idade. Na verdade, no fim de outubro, suas preocupações eram outras.
Agricultor, ele vive no vilarejo de Gudha, na Índia, a mais de oito mil quilômetros do local da competição, mas queria chegar a Perth até 24 de outubro para se preparar para as disputas de 100, 200 e 400 metros. Conseguiu pagar a inscrição, mas não tinha dinheiro para a passagem. E também tinha que tirar o visto. Decidiu viajar para Nova Délhi. Quem sabe um político lá conseguiria os fundos necessários para a viagem para a Austrália?
"Estava disposto a ficar em qualquer canto baratinho. Só queria ir", diz Singh.
Além dele, o competidor mais velho do mundo é uma verdadeira lenda australiana: John Gilmour, 97 anos, veterano da Segunda Guerra Mundial que foi capturado pelos japoneses e submetido a trabalhos forçados. A desnutrição e as péssimas prejudicaram sua visão permanentemente. Ainda assim, retomou a carreira de corredor depois da guerra. Sabia o que o corpo é capaz de suportar. A dor do esporte não era nada comparada à do cativeiro.
"Apesar de todas as adversidades na vida, ele encontrou um meio de sobreviver. Este é o John. Ele poderia ter sucumbido como prisioneiro de guerra, mas não morreu. Voltou para casa, se recuperou e voltou a competir em um nível altíssimo", conta o australiano Stan Perkins, presidente do World Masters Athletics, órgão responsável pela modalidade.
Na pista a meia hora de sua casa, Gilmour ia deixar a vida de corredor aposentado pela primeira vez em onze anos. Quatro mil atletas de 91 países iam competir no campeonato mundial de masters, de 26 de outubro a seis de novembro, evento equivalente à Olimpíada para corredores, saltadores e arremessadores de mais de 35 anos.
Gilmour participaria dos 800, 1.500 e 400 metros, nessa ordem. E na última prova um de seus adversários seria Dharam Pal Singh.
"Difícil acreditar que ele tenha 119 anos. Tem sorte de estar vivo, imagina então correr", afirmou.
Mas apesar da incerteza a respeito de sua idade, Singh é inspiração para muitos atletas indianos, da mesma forma que Gilmour é para os australianos.
"Ele está com saúde, é ativo; só isso já me inspira", revela Abdussamed Ambzhthingal, corredor novato de 75 anos.
Ao contrário de Gilmour, que teve a vida toda catalogada – e comprovada com documentos, fotos, troféus, medalhas e duas biografias – Singh não tem nem certidão de nascimento, já que sua emissão não era frequente no interior indiano na época em que ele diz ter nascido.
"Por causa dessas ausências, os recordes da modalidade masters tendem a ser das nações mais desenvolvidas, prejudicando desproporcionalmente atletas africanos, indianos e de outros países da Ásia", afirma Harmander Singh, analista de políticas sociais e treinador de maratonas de Londres.
Os oficiais negam veementemente qualquer tipo de parcialidade no tratamento aos atletas e/ou registro de recordes. "Eles simplesmente estavam tentando ser justos com todo mundo", explica Sandy Pashkin, a norte-americana responsável pelo acompanhamento dos recordes da World Masters Athletics.
Essa não é considerada uma questão trivial para competições e recordes mundiais, uma vez que os grupos são divididos em incrementos de cinco anos Um corredor da categoria de 70-74 anos, por exemplo, tem uma vantagem considerável sobre outro, da faixa de 80-84 anos.
Dharam Pal Singh garante que sua vida longa não tem nada a ver com falsificações. Seu segredo é leite de vaca, chutney com ervas e frutas da estação, maturadas naturalmente pela luz do sol. E evita manteiga, frituras, açúcar, fumo, bebidas alcoólicas e até chá e café.
"São intoxicantes que o deixam vazio por dentro", afirma.
Ele produz trigo, arroz, cana de açúcar e verduras, dorme em uma cama sem colchão para manter as costas retas e acorda às quatro, indo para a cama às onze. Conta que começou a correr quando pastoreava as vacas, ainda adolescente. Ainda hoje tenta correr de quatro a cinco quilômetros por dia.
"Talvez continue competindo até os 125", diz.
Dia de reconhecimento
Às seis e meia da manhã, horas antes de disputar os 800 metros, John Gilmour, vestido a caráter, já dava voltas no quintal de casa. Jardineiro aposentado, anos atrás ele fez uma pequena pista de terra em meio aos arbustos e flores.
Quatro corredores disputariam na faixa dos 95-99 anos. Gilmour estava mais preocupado com Arthur Carbon, também australiano e ex-corredor profissional. Embora não corresse há 50 anos, se sentiu motivado a esquecer a aposentadoria por causa do campeonato.
Na noite anterior à corrida, Gilmour se sentiu um pouco inquieto. Teve problemas para pegar no sono, preocupado com a estratégia e vários outros detalhes. "Se ele for muito rápido, vou deixá-lo disparar. Tem 96 anos, é jovem", afirmou, referindo-se a Carbon.
Tanta preocupação foi em vão: Carbon acabou desistindo dos 800 metros para se concentrar nas curtas distâncias. Outros dois competidores do grupo também abandonaram a prova, alegando lesões e mal-estar.
Por isso, dois grupos de idades diferentes acabaram se enfrentando. Gilmour fez par com Dumitru Radu, um romeno enxuto de 90 anos que usava uma sunga preta decorada com bolas de futebol e o logotipo da Copa do Mundo de 1990, na Itália.
Antes da corrida, os dois se cumprimentaram. Radu fez uma mesura. Parecia frágil, mantendo as pernas sempre espaçadas e duras, como se corresse com pernas de pau, mas sua forma física foi superada pela garra e determinação – afinal, tinha ganhado uma disputa de cross-country de oito quilômetros. E novamente, ele tomou a dianteira.
Porque os dois pertenciam a faixas etárias diferentes, ambos receberiam a medalha de ouro se cruzassem a linha de chegada. Gilmour persistiu, com um estilo entre caminhada e corrida; não entrava na pista há mais de uma década e já não estava mais acostumado aos longos retões. Para piorar, corria contra o vento.
Conforme os dois se aproximavam do final, o pequeno público se levantou e começou a aplaudir. Alan Bell, o diretor da prova, disse: "Isso não é atletismo, é um verdadeiro exemplo do espírito humano."
Radu chegou primeiro, com 8 minutos e 59 segundos; Gilmour concluiu o percurso em 9 minutos e 19 segundos, com um sorriso no rosto. Os dois se sentaram em uma cadeira e beberam água.
"Estou muito satisfeito de ter terminado", comemorou Gilmour.
Indiscrição jovial?
Gilmour estava marcado para participar de mais duas provas, mas acabou não enfrentando Dharam Pal Singh nos 400 metros, e o indiano não apareceu para os 100 metros. Por telefone, disse que recebera dinheiro de seus incentivadores, mas não o cartão de entrada oficial do encontro e, por isso, não conseguiu o visto.
De acordo com os organizadores, não há esse tipo de coisa. Será que foi desculpa de Singh? Um mal-entendido? O mistério cresceu.
"Não tenho nenhum arrependimento, a não ser o fato de não ter ido para a Austrália. A Índia teria ainda mais motivo de orgulho", afirmou Singh.
E as más notícias não pararam por aí.
Arvind Kumar Singh, funcionário público do cartório onde vive Dharam Pal Singh, disse que recebeu uma reclamação sobre ele no ano passado, relacionada a um prêmio que o idoso deveria receber e se teria condições para tal.
"Descobrimos que a idade que alegava ter era falsa", sentenciou Arvind Kumar Singh.
"Adoraria saber a idade desse homem. Com certeza mais de 80, o que, sem dúvida, faz dele um atleta competitivo", comentou Stan Perkins, presidente da World Masters Athletics.
"Singh corre tão bem que é bem provável que continue competindo daqui a dez anos", completou.
Sandy Pashkin, a responsável pelo registro dos recordes da organização, riu.
"Ah, tá, vai correr até os 130?"
"É bem possível", retrucou Perkins.
* Jeré Longman e Hari Kumar