Por que o RS tem os casamentos mais duradouros do Brasil?
Quando viu Joel Silva Cordeiro chegando para trabalhar na fazenda do pai, no interior de Santa Maria, Midian Weber sabia que ele seria seu par. A irmã mais velha até brincou que a jovem não teria chance, que o recém-chegado seria companheiro dela, mas Midian tinha certeza.
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O tempo passou, ela e Joel foram se conhecendo, apaixonaram-se. Quando ele tinha 24 anos, e ela, 17, celebraram o matrimônio. A união, firmada em junho de 1971, já completa 45 anos. Parece uma história de outro tempo, de um passado em que os casamentos duravam mais? Não é bem assim. Estatísticas do registro civil do ano passado compiladas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Rio Grande do Sul, ao lado do Piauí, tem o maior tempo médio de duração dos casamentos: são 18 anos, enquanto a média nacional é de 15.
E não é de agora: o Estado gaúcho se mantém entre aqueles com a maior média de casamentos duradouros. Em 2012, quando a média mais alta era de 17 anos, o Rio Grande do Sul estava empatado no topo com outro representante, o Maranhão. De lá para cá, a média no Brasil, que na década passada era também de 17 anos, permaneceu estável em 15 anos. Já por aqui, aumentou.
Casais, pesquisadores e até religiosos não encontram uma explicação exata para os números. Mas acreditam que a cultura gaúcha, vista como conservadora, é indicadora de que as uniões no Estado tendem a ser formadas com o objetivo de durarem mesmo "até que a morte os separe".
— As questões tradicionais ainda estão muito presentes no Rio Grande do Sul. Essa proximidade com uma cultura talvez mais conservadora acaba influenciando os laços sociais que estabelecemos — avalia a doutora em sociologia e professora da Feevale Sueli Cabral.
Os dados do IBGE, porém, abrem margem para outra interpretação. Como leva em consideração a data do casamento e a data da sentença ou escritura do divórcio para estimar a média de duração dos matrimônios, o estudo pode estar revelando que por aqui a união dura mais tempo antes de o casal decidir pelo divórcio. As estatísticas não mostram o tempo total em que duas pessoas estiveram juntas. Ou seja: o Estado pode não ser um pilar de relacionamentos duradouros, como sugere uma primeira análise dos números.
— O fato é que os casamentos estão terminando, só que aqui costumam durar mais — completa a socióloga.
Menos tolerância e divórcios em queda
Joel e Midian representam um ideal que é de muitos casais: o de um casamento repleto de alegrias — apesar, claro, de alguns percalços — que vem desde a juventude. Para o sucesso da união, cada um tem uma explicação:
— Meu pai ficou casado com a minha mãe até morrer. Eles se entendiam muito bem, e eu cresci ouvindo dizer que casamento era um só, e para a vida toda — é o que diz Joel.
— Creio que o amor verdadeiro é o principal. Acredito que tenha uma influência da família também, mas, no nosso caso, foi amor à primeira vista — relata Midian.
O casal tem dois filhos: o primeiro foi Heber, hoje com 42 anos e casado há 20 — um reflexo da relação matrimonial dos pais. O segundo é Everton, 35 anos e casado pela segunda vez — um reflexo, por sua vez, dos dados que mostram como o divórcio tem se tornado mais comum nos últimos anos. Para a psicóloga Izabel Eilert, isso se explica porque há menos tolerância para a frustração na atualidade.
— A relação a dois parecer estar muito descartável. No passado era diferente porque, socialmente, o homem precisava de uma mulher para cuidar da casa, e a mulher precisava do homem para mantê-la. Isso já mudou, mas acabou dando lugar a um padrão que hoje é de pouca tolerância.
Ainda assim, as estatísticas do registro civil dão conta de que os divórcios apresentaram queda no país. O número total caiu 3,6 % no ano passado, em relação a 2014. Como há oscilações na série histórica, o pesquisador do IBGE Luiz Fernando Costa explica que não é possível afirmar que há uma tendência de queda no número de divórcios, nem apontar uma causa específica para esse decréscimo recente.
Os matrimônios, pelo que mostram as estatísticas do instituto, tendem a chegar ao fim quando o casal está na faixa dos 40 anos e tem filhos pequenos. Conforme a psicóloga de família Gabriela Filipouski, isso pode acontecer porque muitos casais acreditam que a chegada de crianças pode "salvar" o casamento — mas, quando essa decisão surge como uma tentativa de solução para os problemas em vez de ser um acordo em uma relação já saudável, acabaria levando a mais problemas.
Religiosidade também é apontada como motivadora
Se cultura e tradição familiar não explicam sozinhas a duração maior dos casamentos no Rio Grande do Sul, há quem aponte também a religiosidade como fator importante para os casais permanecerem unidos. Casados há 21 anos, os fonoaudiólogos Marcio e Maristela França se conheceram na Igreja Católica, ainda que só tenham começado a namorar depois de ingressarem, juntos, na faculdade de Fonoaudiologia.
A união, abençoada pelo padre, amigo e xará Márcio Andrade da Silva, rendeu três filhos - hoje com 17, 10 e 5 anos. Filhos de pais separados, Marcio não atribui a qualquer herança familiar a vontade de manter um casamento duradouro. A explicação, para ele, está no amor e nos ensinamentos da Bíblia.
— A gente vai se dando conta de que o amor não é algo do nosso controle.
Respeito, tolerância, transparência e diálogo são outros ingredientes apontados por ele para que a união dê certo. Percepção semelhante tem o pastor da igreja adventista Edson Rauber. Casado há 22 anos, o religioso entende que a cultura germânica, italiana, arraigada em tantas partes do Estado, tem um papel na longevidade dos matrimônios, mas também atribui o resultado à influência religiosa.
— Isso é muito forte aqui, o que talvez explique a alta média de duração dos casamentos. Mas, no final das contas, o mais importante em um casamento é que, lá no início, ambos tenham a certeza de que fizeram a escolha certa.
Foto: arte ZH / RBS