Trump, Dilma, Juncker e o Lado Negro da Força
Mais cedo ou mais tarde, alguém diria que o programa econômico de Donald Trump lembra o de Dilma Rousseff.
Era previsível e, em certa medida, inevitável.
Desta vez, o Google, o Facebook e a pós-verdade são inocentes. Os que veem semelhanças entre as propostas de Trump e de Dilma tampouco são como as dezenas que foram à Avenida Paulista com cartazes onde se lia "Hillary é a Dilma americana".
O que está em jogo, desta vez, não é criar virais para as redes sociais.
Os que equiparam Trump a Dilma têm uma missão superior, sagrada. São cavaleiros Jedi a serviço da defesa de verdades intocáveis do pensamento econômico.
Esses guerreiros sentem uma vibração negativa da Força ao redor de Trump.
Não, não se trata de sua proposta de criar um cadastro de todos os muçulmanos em território americano, nem de erguer um muro na fronteira com o México, nem muito menos de combater o direito das mulheres ao aborto. Em relação a tudo isso, o Conselho Jedi é indiferente – ou agnóstico, mais propriamente.
Os Jedi de "Star Wars" lutam contra Darth Vader, o Lorde Negro de Sith. Para os Jedi da austeridade, o inimigo é o Lorde Branco de Bloomsbury, John Maynard Keynes Foto: Reprodução / Ver DescriçãoO problema com Trump é que seu plano econômico não é constituído de variações sobre os temas estabelecidos há quase 30 anos pelo chamado Consenso de Washington.
Esse é um ponto sobre o qual nossos heróis não toleram a mais mínima tergiversação.
Expulsão de migrantes? Sem problema. Promiscuidade entre papéis públicos e negócios privados? Siga em frente. Relações com a Ku Klux Klan e com o nacionalismo branco? Está liberado. Mas ai de quem cogitar expansão de gasto público para reaquecer a economia, alguma forma ainda que mitigada de regulação do sistema financeiro ou questionamento da mais ampla e irrestrita abertura comercial.
O programa econômico de Trump contém todos esses ingredientes, embora ainda não se saiba de que maneira o presidente eleito pretenda ou queira misturá-los.
Propõe uma lei de energia e infraestrutura para estimular US$ 1 trilhão em investimentos em obras públicas nos próximos 10 anos. Apoia a retomada da lei dos tempos do New Deal que impôs limites à atividade especulativa dos bancos. Também denuncia o Nafta e a Parceria Transpacífica como prejudiciais aos interesses americanos.
E por que razão essas medidas foram parar no programa do candidato do partido de Ronald Reagan e George W. Bush?
A explicação é que uma parcela significativa do eleitorado americano perdeu as ilusões num sistema que prometia prosperidade em troca de desregulação máxima para o setor financeiro e a indústria e que, ao cabo de 25 anos, propiciou benefícios imensuráveis para o andar de cima e pobreza e desigualdade galopantes para a choldra.
A responsabilidade por esse estado de coisas é dos dois partidos, Democrata e Republicano. Mas, sintomaticamente, todos os principais candidatos na disputa pela Casa Branca este ano prometeram limitar as benesses abusivas de Wall Street e do 1% (os bilionários do topo da pirâmide de renda americana). A desgraça de Hillary Clinton foi ser identificada demais com os bancos para que sua versão desse discurso fosse convincente. Restou Trump.
E o que tudo isso tem a ver com Dilma? Para os Jedi da austeridade, por trás de todas as disparidades – e, a bem da verdade, oposições frontais –, a ex-presidente e Trump são culpados do pecado de crer na expansão do gasto público como ferramenta anticíclica. Eis aí, oculta sob um emaranhado de diferenças, a marca da maldade que os condena à danação eterna.
Aliás, há outras ameaças potenciais saindo do armário: a União Europeia acaba de sugerir um estímulo de mais de 50 bilhões de euros (cerca de R$ 184 bilhões) para tirar a economia da zona do euro do atoleiro. É um pacote equivalente a 0,5% do PIB do bloco da moeda única, mas que se afasta do livro sagrado da austeridade.
O diabo, como diz o antigo provérbio, está nos detalhes.
Trump, Dilma e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia: todos foram enfeitiçados pelo Lado Negro da Força. Ou sempre estiveram lá, vá saber. Há coisas entre o céu e a terra que é preciso ser Jedi para conseguir enxergar.