Ricardo Felizzola: calamidade
Todos dormindo no quarto. Pela manhã, o irmão maior vai à escola e leva a menor junto. Estudam na pública, perto da cidade. Pai e mãe também têm tarefas. A chuva é enorme. A casa, perto do rio. De repente: calamidade! A água entra aos borbotões, pela cozinha, e alaga a sala e, pasmem, o quarto. O calor das cobertas transforma-se numa úmida sensação de frio, de terror... Todos saem correndo e passam a se juntar aos outros, também cidadãos ribeirinhos, também com seus planos para o amanhã. A água sobe. Há de se esperar ela voltar para o berço do rio. Há de se trabalhar para reconstruir. Serão tempos difíceis para aquelas famílias. Não deveriam morar perto do rio.
Todos trabalhando e contribuindo para o Estado, na forma de impostos. Pela manhã, o irmão maior vai à escola pública, com a irmã. Não haverá aula, é greve. Tempo indeterminado. O pai sai para trabalhar e vai de lotação. No meio do trajeto, um homem armado dá voz de assalto ao motorista, pega a féria e sai correndo. A lotação não vai adiante, é ocorrência. Normal. Falta segurança. A mãe havia saído cedo para consultar, conseguiu ficha para 90 dias... Está sentindo dores incríveis no lado direito, mas vai ter de esperar. Falta educação, segurança e saúde nesta comunidade. É como a enchente, mas sem possibilidade de voltarem as águas. A não ser mudando a atitude dos cidadãos.
A folha de pagamento do Rio Grande do Sul supera o recolhimento do ICMS. A crise atual não abre perspectivas para uma maior arrecadação e os impostos estão na última volta do parafuso. Quem quer começar um negócio paga, quem quer continuar um negócio, se houver alguém comprando, paga, e quem quiser parar um negócio também paga. O setor produtivo paga para trabalhar. Tem aposentadoria contadinha e perde o emprego ou quebra ali adiante. O setor público está falido e não consegue cumprir o básico. Mas consegue, ainda, já rateando mês a mês, arcar com despesas de processos que não são os básicos, comprometendo os mesmos. Isto não é justo com a sociedade e aqui não se trata de atacar a competência ou o valor de quem ali labuta. Trata-se de defender o melhor uso possível dos impostos. O Estado tem de focar naquilo que só ele pode fazer e deixar o resto para o setor privado. Assim, o pai vai ter segurança, a mãe vai ter saúde e os filhos vão estudar para transformar nosso país.
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