Antonio Felipe Purcino: gritos de preconceito
Em meio à euforia da Olimpíada, sua festa, as lendas do esporte e o resultado histórico do Brasil, um fato negativo virou nota de rodapé, até ser esquecido: os gritos de "ôôô, bicha!" nos estádios de futebol.
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Prática importada do México, ela logo se espalhou pelo continente e chegou por aqui recentemente, sendo repetida a cada reposição de bola do goleiro adversário. Manifestações que têm se tornado cada vez mais comuns pelo país, assim como outros gritos que usam a orientação sexual como se fosse uma ofensa. Muitas vezes, reditos sem que a pessoa perceba o que está reproduzindo: preconceito contra os LGBTs.
A homofobia no futebol é um tema marginal, raras vezes discutido. Jogadores e até juízes que assumem sua orientação sexual são segregados — e mesmo alguns que nunca disseram ser gays são perseguidos por onde passam. Até um ato inocente, como o selinho do atacante Emerson Sheik em um amigo, foi motivo para protestos homofóbicos de torcedores — ação punida pela Justiça paulista.
No Rio Grande do Sul, em meio à ditadura, nasceu uma vanguarda da diversidade: a Coligay, primeira torcida homossexual do país. Apesar de sua relevância histórica e social, ela ainda hoje é usada pelos adversários como se fosse motivo de troça, é rechaçada por muitos gremistas, quando deveria ser razão apenas de orgulho.
Temos raríssimas ações para combater o preconceito contra os LGBTs no futebol. Em 2014, o Corinthians fez um manifesto pedindo o fim do grito de "bicha" no tiro de meta, atitude repetida neste ano pela Gaviões da Fiel. Ainda em 2016, a
Fifa anunciou punição com multa a seis federações da América Latina pelos cantos homofóbicos de suas torcidas. Já na Olimpíada, nada aconteceu. É preciso uma ação efetiva.
Qual o sentido de gritar "veado", "bicha" para o rival? Amar alguém do mesmo sexo ou assumir sua identidade de gênero não é demérito. Ofensivo é vermos um LGBT ser morto a cada 28 horas no Brasil. É vermos essa população ser agredida e oprimida apenas por ser quem é. Combater o preconceito passa também pelo futebol. Clubes, federações, Justiça, mídia, todos devem se unir nessa luta. Quem será o primeiro a avançar pelo respeito à diversidade?
*ZHESPORTES