Artmis II – a Volta para a terra e o pouso no pacífico
Lançada do Cape Canaveral Space Force Station, na Flórida (costa leste dos EUA), a missão Artemis II pousou nesta sexta-feira, 10, no oceano pacífico, próximo à San Diego, na Costa Oeste, às 21h07, no horário de Brasília. A viagem que contornou a Lua e registrou o lado escuro do satélite terrestre saiu no foguete mais poderoso do mundo, o Space Launch System (SLS) em 1º de abril de 2026. Voltou à Terra, com seus quatros astronautas, numa minúscula e apertada cápsula pressurizada.
Parece fácil, imaginem vocês. Primeiro tem que empurrar pra cima 2,61 milhões de quilos, queimando propelente líquido, hidrogênio e oxigênio. Para isso, são necessários dois propulsores para tirar isso tudo do chão. Do comando para a partida dos motores, ignição dos boosters e separação dos umbilicais até o liftoff propriamente dito, levaram cerca de 10 segundos.
Na ida, a SLS saiu da troposfera em poucos minutos, cruzou à estratosfera em aproximadamente 50km acelerou até a termosfera. Quando passou a linha de Kármán, em cerca de 100 km, continuou acelerando até a órbita baixa da terra. Para chegar à velocidade orbital, mais ou menos 28 mil km/h, foram cerca de 8 a 9 minutos.
Antes de pintar a Lua, os astronautas já haviam registrado um dos retratos mais precisos da Terra em trânsito para o espaço profundo — uma imagem que, ao ser analisada com mais cuidado, revela muito mais do que um simples “planeta azul”. A fotografia mostra o hemisfério africano em destaque, com o deserto do Saara visível, invertido na perspectiva da foto, além da faixa iluminada da atmosfera delineando a curvatura do planeta.
As luzes visíveis na região de transição entre noite e dia indicam áreas urbanizadas do norte da África e da Península Ibérica, possivelmente próximas ao Estreito de Gibraltar — ponto estratégico que conecta o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. A iluminação da cena não vem “de trás” da Terra, mas lateralmente, fora do enquadramento, evidenciando a posição do Sol em relação à nave durante a queima de injeção translunar.
No fundo, estrelas pontuais e o planeta Vênus destacado no lado direito inferior da imagem ajudam a compor o campo celeste, alinhado à eclíptica e às constelações de Peixes e Áries, como indicam simulações astronômicas compatíveis com o horário e a trajetória da missão.
A comunicação, a separação e a reentrada
Mais de cinco décadas desde a última passagem do homem à Lua, o trabalho de reentrada foi coordenado da sala de controle no Johnson Space Center, em Houston, sob a liderança do Diretor de Voo Rick Henfling.
17 minutos antes da separação dos módulos de tripulação, o Integrity e o módulo de serviço (European Serviço Module – ESM), houve a troca dos canais de comunicações a Rede de Espaço Profundo (Deep Space Network – DSN) para o sistema TDRSS (Tetris). A rede do espaço profunda estava sendo utilizada desde a queima de Injeção Translunar, realizada em 2 de abril. É essa rede do espaço profundo, aliás, que o único goiano na Nasa, Luciano Camilo, de Ipameri, é um dos engenheiros. No momento da confirmação da troca, a cápsula Integrity estava a cerca de 5.700 milhas náuticas do local de pouso
Exclusivo: engenheiro goiano de Ipameri revela bastidores da trajetória até a Nasa – Jornal Opção
Jackie Mahaffey: “Integrity. Houston, teste de comunicação na Tetris”
Reid Wiseman: “Jackie, ouvimos alto e claro na Tetris”
Jackie Mahaffey: “Ouvimos vocês da mesma forma”
Às 18h33 (CT), ocorreu a separação entre os móduos. A partir desse momento, a cápsula passou a voar de forma independente. Quatro minutos após a separação, a Orion realizou o “Raise Burn”, um disparo de 19 segundos de seus propulsores. O objetivo foi inclinar levemente a parte traseira da nave para ajustar o ângulo de ataque, essencial para minimizar o calor extremo no escudo térmico.
A cápsula realizou uma manobra de rotação (roll) para a atitude correta de entrada e os sensores barométricos foram ativados para medir a altitude e a taxa de descida. ÀS 18h53min30s (CT), a uma altitude de 400.000 pés e viajando a quase 35.000 pés por segundo, a cápsula finalmente atingiu oficialmente a atmosfera terrestre.
Durante os momentos críticos da reentrada e recuperação da Artemis II, a comunicação principal ocorreu entre a Capcom Jackie Mahaffey, no Centro de Controle de Missão em Houston, e o comandante da Integrity, Reid Wiseman. Na transmissão oficial, Rob Navias (em Houston) e Megan Cruz (no navio USS John P. Murtha), forneceram o contexto para o público.
Após a entrada na atmosfera (conhecida como “Entry Interface”), a missão Artemis II viveu seus 13,5 minutos mais intensos e rápidos, marcados pelo calor extremo, silêncio de rádio e uma sequência precisa de paraquedas até o pouso no Oceano Pacífico. A cápsula Integrity atingiu o topo da atmosfera a 400.000 pés, viajando a 34.882 pés por segundo (cerca de Mach 33). Pela primeira vez em nove dias, os astronautas sentiram a “primeira puxada da gravidade”
Pouco antes de perderem o sinal, a Capcom Jackie Mahaffey avisou: “Integrity, um minuto para um blackout de seis minutos”. Reid Wiseman apenas confirmou: “Integrity
24 segundos depois da reentrada. O silêncio. Seis minutos de silêncio total no rádio. Durante seis minutos, a nave ficou envolta em um escudo de plasma superaquecido (entre 4.000 e 5.000 °F), o que impediu qualquer comunicação por voz ou dados.
Enquanto a sala de controle em Houston aguardava em silêncio, aeronaves de monitoramento (como o P-3 e o WB-57) capturaram imagens da cápsula como um “ponto de luz brilhante” cruzando o céu.
A descida final exigiu a abertura de várias camadas de paraquedas para reduzir a velocidade de Mach 33 para apenas 19 mph. A 5.000 pés, os três enormes paraquedas principais (cada um com 116 pés de diâmetro) foram inflados.
O impacto com a água ocorreu às 19:07:27 (horário central).
A missão foi concluída com um tempo total de 9 dias, 1 hora, 32 minutos e 15 segundos, tendo percorrido 694.481 milhas no total. O Controle de Missão descreveu a trajetória como “tão precisa que nunca viram nada se alinhar tão perfeitamente com a rota prevista”.
A Orion pousou na configuração “Stable 1” (na vertical). Imediatamente após o pouso, o comandante Reid Wiseman reportou “quatro tripulantes verdes”, um termo técnico para indicar que todos estavam em excelentes condições de saúde. Antes da aproximação final, mergulhadores da Marinha realizaram uma avaliação para garantir que não havia vazamento de gases tóxicos.
Os mergulhadores instalaram um colar ao redor da Orion para evitar que ela balançasse excessivamente com as ondas. Uma balsa inflável de grande porte, apelidada de “front porch” (varanda frontal), foi acoplada ao lado da escotilha. Mergulhadores da Marinha com treinamento médico abriram a escotilha e entraram na cápsula para uma primeira avaliação presencial. Eles relataram que os astronautas estavam animados e até tirando selfies enquanto aguardavam.
Os astronautas saíram da cápsula para a balsa um por um na seguinte ordem: Christina Koch, Jeremy Hansen, Victor Glover e, por último, o comandante Reid Wiseman. Na balsa, eles tiveram alguns momentos para recuperar as “pernas de terra” após nove dias de microgravidade.
Dois helicópteros da Marinha (Kilo 1 e Kilo 2) realizaram o içamento dos astronautas diretamente da balsa.
A viagem de helicóptero até o navio durou apenas alguns minutos. Ao pousarem no convés, foram recebidos pelo Administrador da NASA e encaminhados para a baía médica para exames físicos abrangentes
- Enquanto os astronautas estavam em exames médicos, as equipes de mergulho começaram o processo de prender linhas de reboque na Orion.
- Deck Inundável: A cápsula foi lentamente puxada para dentro do “well deck” (deck inundável) do USS John P. Murtha, uma operação que leva entre 5 a 6 horas para ser concluída após o pouso.
Todo o aprendizado desta missão serve para abrir o caminho para a superfície lunar. O plano é estabelecer uma presença duradoura na Lua, com o pouso humano previsto para 2028, incluindo a construção de módulos de habitação em parceria com agências internacionais, como a italiana. O objetivo final dessas competências adquiridas na Lua é, eventualmente, realizar missões tripuladas para Marte.
O post Artmis II – a Volta para a terra e o pouso no pacífico apareceu primeiro em Jornal Opção.