Conheça a goiana que representa o Brasil na prova de laço feminino em um dos maiores rodeios dos EUA
Quando o laço roda no ar, uma trajetória de dedicação, herança familiar e paixão pelo campo se condensa naquele instante. É nessa fração de tempo que Beatriz Fonseca Alvarenga, 20 anos, está construindo o caminho que a levou de um rancho em Santo Antônio de Goiás, na Grande Goiânia, até Lexington, no Kentucky (EUA), onde disputa, a partir desta quinta-feira, 9, a etapa final da regional Leste do The American Rodeo, a máxima do esporte que transformou o cotidiano de fazenda em competição de elite mundial.
A jovem compete na modalidade breakaway roping, a versão feminina da prova de laço, que tem ganhado espaço no Brasil. Em jogo está uma premiação de US$ 10 mil (aproximadamente R$ 50 mil) para quem vencer a etapa regional e, mais adiante, a possibilidade de embolsar mais de US$ 1,1 milhão (aproximadamente R$ 5,5 milhões) em uma única noite, caso confirme a classificação para a grande final e cruze a arena do Globe Life Field, em Arlington, no Texas, como campeã.
“Eu falo que é uma grande graça de Deus. Não tem como não ver de outra forma”, resume a mãe da jovem, Camila Fonseca Alvarenga, em entrevista ao Jornal Opção concedida enquanto acompanhava, à distância, os momentos que antecedem a prova da filha. “É realmente uma grande bênção.”
As raízes plantadas em admiração familiar
A história de Beatriz nas arenas não começa com ela. O pioneiro da família a se aventurar atende pelo nome de Gustavo Silva Alvarenga, o marido de Camila e pai da competidora. Foi ele quem, ainda jovem, descobriu o laço individual e fincou as estacas de uma tradição que agora atravessa gerações.
“Eu namorava com o Gustavo, ele já laçava, eu acompanhava ele nas provas. E depois que nos casamos, nossos filhos foram criados nesse meio. Cresceram no meio de cavalos e provas de laço”, recorda Camila.
Beatriz absorveu o ambiente desde pequena, mas o ímpeto competitivo demorou alguns anos para se manifestar. Por volta dos nove ou dez anos, começou a montar com intenção de participar de provas. A porta de entrada foi a modalidade de rédeas, um primeiro contato que logo cedeu espaço à influência paterna e à migração natural para o laço.
Aos 14 anos, Beatriz estreou nobreakaway roping. O que veio depois foi uma sequência de conquistas que pavimentaram o caminho até Lexington: campeã do Congresso Brasileiro em 2025, campeã jovem nacional no mesmo ano, título da Associação Nacional do Laço Individual em 2022 e, coroando a escalada, o menor tempo registrado na arena de Barretos durante a 70ª Festa do Peão de Boiadeiros, em 2025.
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“A classificação geral dela foi em quarto lugar”, detalha a mãe. “Os cinco melhores de Barretos têm vaga garantida para participar dessas eliminatórias do The American Rodeo. O sonho de todas as meninas que fazem breakaway é participar de um dos maiores rodeios do mundo.”
A engrenagem por trás
Para quem observa de fora, a modalidade pode parecer simples: uma cavaleira, um bezerro lançado à frente, um laço que precisa envolver o pescoço do animal e um barbante que se rompe para interromper o cronômetro. A execução, no entanto, exige uma precisão construída sobre horas de treino e uma intimidade quase simbiótica com o animal.
Camila explica a origem funcional da prova. “A gente chama de provas funcionais porque elas nasceram do dia a dia na fazenda. Um bezerro que está no meio da boiada, os peões laçavam para separar. Aí começaram a competir para ver quem laça mais rápido.”
O nome breakaway vem justamente da peça que conecta a corda à sela, um barbante que se solta no momento exato em que o laço prende o bezerro, definindo o tempo da tentativa. Nos Estados Unidos, as melhores marcas giram em torno de dois segundos.
Para atingir esse patamar, Beatriz divide sua rotina entre o mundo da anatomia e os arreios do treinamento. Estudante do quarto período de Medicina na Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA), em Anápolis, ela retorna duas vezes por semana ao Rancho GSA, centro de treinamento da família localizado em Santo Antônio de Goiás, a 50 minutos de Goiânia. Nos finais de semana, intensifica a preparação.
“Ela consegue conciliar os treinos com a faculdade. A UniEVANGÉLICA deu um super apoio para a Beatriz”, ressalta Camila. A direção da universidade abraçou a causa, garantindo que as ausências durante o período de competição nos Estados Unidos tenham as presenças justificadas e as avaliações adequadas. “Esse apoio da faculdade foi muito importante para que ela pudesse ir.”
Beatriz não viajou sozinha para a competição em Kentucky, levou consigo um pedaço do clã Alvarenga. O cavalo que ela monta em Lexington pertence ao primo, Lucca Alvarenga Kotscho, que cursa Agronegócio na Tarleton State University, em Stephenville, no Texas, e também compete por lá. Lucca possui dois animais, um cavalo e uma égua, e foi com o primeiro que a prima goiana encontrou maior sintonia.
“A gente sempre fala que precisa ter um conjunto. Cavalo é igual gente, tem o jeito, é mais rápido, mais inquieto, precisa entender com o que é o animal”, pontua Camila. “Laçar um outro animal é sempre mais desafiador, porque você não tem intimidade.”
A adaptação começou antes da prova. Beatriz chegou com antecedência aos Estados Unidos para se familiarizar com o cavalo emprestado e aproveitou a estadia para um aperfeiçoamento que a mãe comparou a um atleta de futebol fazer um curso com Neymar. A referência no caso é J.J. Hampton, estrela do breakaway mundial e ídola declarada da goiana.
“A J.J. Hampton é uma mulher incrível, grande ídola pra Bia. Deu muitas dicas, foi um curso muito bom, que agregou muito”, relata Camila, que conversou com a filha horas antes da eliminatória. “Ela está super tranquila, bem segura, muito feliz e preparada para correr.”
O mapa da competição
O The American Rodeo distribui suas fases por diferentes regiões dos Estados Unidos. Beatriz disputa a final da regional Leste em Lexington. Nesta quinta-feira, cada competidora inscrita enfrenta dois bezerros. As dez melhores classificadas avançam para a disputa decisiva da regional no sábado, 11, enfrentando mais dois bezerros.
Quem triunfa na etapa regional garante também a vaga para a grande final do The American, marcada para os dias 22 e 23 de maio no Globe Life Field, em Arlington. Ali, a campeã do breakaway embolsa ao menos US$ 100 mil (aproximadamente R$ 500 mil). Mas há um bônus que multiplica os olhos brilhando: o chamado “qualifier”.
O mecanismo premia com até US$ 1 milhão adicional o competidor que chega à final pelas vias abertas, ou seja, sem ser um atleta convidado da elite, e vence a prova. Beatriz encaixa-se exatamente nesse perfil. Uma vitória na final geral pode transformar uma noite texana em um aporte financeiro de US$ 1,1 milhão (aproximadamente R$ 5,5 milhões).
“Passando hoje, a Bia faz no sábado a última prova do The American e, passando, vai para a final da regional Leste. Aí volta para o Brasil, continua a vida normal, vai para a faculdade, intensifica os treinos e retorna em maio para a final geral”, projeta a mãe.
O hobby não abandona o jaleco
Apesar da dimensão das cifras e do prestígio internacional, Camila ressalta o delimitar o espaço que o rodeio ocupa na vida da filha. “A competição em rodeio é um hobby pra Bia e sempre vai ser. É um algo muito querido, mas é um hobby. Ela não vai deixar a Medicina para ser atleta de rodeio.”
A afirmação carrega uma convicção muito além da lógica financeira. “Nós somos católicas, a Medicina é até uma questão de vocação mesmo, de querer ajudar as pessoas através da saúde. Poder fazer o bem através de uma profissão que permite isso.”
Beatriz ingressou na UniEVANGÉLICA em agosto de 2024 e hoje cursa o quarto período. A rotina de viagens entre Anápolis e o rancho, as competições interestaduais e agora a incursão internacional são administradas com a exatidão de quem não pretende abrir mão de nenhum dos dois mundos.
Uma família inteira na arena
O rodeio para os Alvarenga não é um esporte solitário. Enquanto Beatriz brilha no breakaway, o irmão Rogério Fonseca Alvarenga, de apenas 17 anos, já integra a categoria profissional do laço individual no Brasil, o único adolescente a competir nesse nível no país. “Ele laça com os profissionais e é muito bom”, orgulha-se Camila.
Os planos de Rogério miram o mesmo horizonte texano que a irmã mais velha desbrava agora. Ele quer cursar faculdade nos Estados Unidos para seguir competindo e, quem sabe, alcançar o Wrangler National Finals Rodeo, a NFR, que anualmente reúne a elite do esporte em Las Vegas.
O primo Lucca, anfitrião dos cavalos que Beatriz utiliza em Lexington, representa a vertente da família no exterior. Pela Tarleton State University, ele disputa os campeonatos estudantis e vem se destacando nas arenas do Texas.
Na arquibancada, ou na beira da pista, fica Heloiza Fonseca Alvarenga. A irmã que não laça assumiu o posto de parceira de torcida da mãe. “Ela não mexe com o laço, mas gosta do meio, me acompanha. A gente é parceirinha lá na torcida”, conta Camila, que vê no marido Gustavo a origem de tudo. “Meu marido foi o pioneiro, foi quem começou tudo e está arrastando essa geração mais nova com ele.”
Beatriz faz parte da força feminina nos rodeios
O breakaway roping ainda engatinha no Brasil, mas o crescimento é visível para quem acompanha o circuito. Camila enxerga o fenômeno como uma expansão natural, ainda que tardia, de um ambiente historicamente masculino.
“Claro que o rodeio é um esporte mais masculino, porque a origem é na fazenda. E lá, quem lidava mais com o gado eram os homens. Mas sempre tiveram mulheres metidas nas coisas dos cavalos e dos bezerros”, contextualiza.
Foram justamente essas pioneiras que abriram espaço para a modalidade feminina ganhar corpo e identidade própria. “O breakaway no Brasil é muito recente, realmente. Ele foi crescendo devagarinho, as mulheres começaram a ter um interesse maior e a gente vê que está aumentando. Ver que a Beatriz faz parte disso é muito bacana.”
Ao contrário do que se poderia supor, o ambiente não carrega resistência de gênero. “Os homens apoiam muito as mulheres no esporte, é uma coisa muito aberta. Aliás, o laço, o cavalo, de uma forma geral, é um meio muito familiar, abraça todo mundo e tem lugar para todo mundo.”
Essa atmosfera de acolhimento se reflete na torcida que Beatriz recebe de peões veteranos, amigos do pai que a tratam como sobrinha. “É uma ligação tão grande das pessoas que a gente se torna mesmo uma família”, define Camila.
O brilho que ela chama de “sunshine”
Enquanto a transmissão do Cowboy Channel exibe as provas que antecedem o breakaway em Lexington, Camila aguarda, do outro lado do hemisfério, o momento em que a filha entrará na arena. A distância geográfica não diminui o encantamento materno.
“É um grande orgulho vê-la fazendo o que ama. Eu chamo ela de ‘minha sunshine’, falo que ela está brilhando e fico muito feliz de vê-la conquistando tudo isso”, confessa.
A fé, elemento recorrente no discurso familiar, aparece como alicerce. “A Beatriz é uma filha muito dedicada e de uma fé imensa. Vê-la caminhando e dando todos esses passos… eu vejo que é bênção divina mesmo.”
Entre os estudos de Medicina, os treinos no Rancho GSA em Santo Antônio de Goiás, as arenas nacionais e agora os holofotes do The American Rodeo, Beatriz Alvarenga vive muito mais que um momento de laço e sela, ela traz junto de si o legado de seu pai, a torcida de Heloiza, os planos de Rogério, os cavalos de Lucca e o olhar de sua mãe Camila que, mesmo a milhares de quilômetros, não perde um segundo da filha que insiste em brilhar.
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