Dona Idalina e Brasiliana
Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
Ao meu estimado amigo e contemporâneo José Maria de Alencastro Pelles, o jornalista Jotamape.
Nos meus idos tempos de menino, conheci algumas figuras emblemáticas da eterna Capital de Goiás. Duas delas moravam bem junto à igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, logo ali na entrada da Rua da Fundição, também chamada de Luiz do Couto.
Eram, respectivamente, Dona Idalina de Roque, a dona da casa, e Brasiliana, que com ela morava, incansáveis nos cuidados com as coisas da igreja, especialmente no lavar, passar, coser e reparar as alfaias e tudo aquilo que fosse necessário ao uso litúrgico.
Mas não ficavam apenas nisso. Eram verdadeiros anjos-da-guarda dos padres, cuidando de tudo o que eles necessitassem.
Dona Idalina, já idosa, era gorda e tinha as pernas muito inchadas, em razão das úlceras varicosas e dos repetidos episódios de erisipela. Vivia sentada numa cadeira baixa, na sala de jantar, de modo a ver facilmente quem assomasse à porta-do-meio.
Em lugar de destaque, na parede, o pergaminho da Bênção Apostólica, emoldurado com a fotografia do papa João XXIII, “gloriosamente reinante”.
Brasiliana, uma preta alta e magra, tinha a carapinha prateada pelos muitos janeiros. Ocupava a maior parte do tempo empunhando um pesado ferro-de-brasa com o qual passava e engomava as toalhas de altar; alvas; amitos; corporais e sanguíneos; dalmáticas; casulas; estolas; manípulos e até mesmo as pesadas capas de asperge… um trabalho imenso e interminável!
Como se tudo isso não bastasse, as duas faziam artísticas e alvas verônicas de açúcar e puxas de rapadura. Estas últimas só tinham por rivais as fabricadas por Dona Olinda Bueno, da Rua do Horto, 89, vizinha do consultório de meu tio-avô, Dr. Tasso de Camargo, cujo imóvel acabou por se converter em minha residência, quando voltei para Goiás em 1984.
Quando morreu Dona Idalina, a cidade inteira comoveu-se, pois ela era a própria encarnação da simpatia e da bondade. Os padres, muitos deles estrangeiros, choravam como crianças, pois tinham perdido aquela que, para eles, se comportava como se fosse a própria mãe: padre Cirilo — polaco; padre Pedro — holandês; padre Angelino (mais tarde monsenhor e vigário-geral) — espanhol; e padre Luiz — também espanhol.
Hoje, infelizmente, não se tem mais memória dessas pessoas que dedicaram suas existências a coisas tão importantes na vida da cidade naquela época. Restam apenas essas felizes lembranças por parte dos que, como eu, tiveram a felicidade de conhecê-las.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
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