Agostinho: o verdadeiro aprendizado acontece quando a mente, voltando-se para dentro, encontra a verdade
Ana Kelly Souto
De Portugal para o Jornal Opção
O abecedário de Agostinho: N de Nome
Quando viajamos e experimentamos uma nova fruta, um lugar ou encontramos uma pessoa, queremos saber o nome de cada coisa. Nomear é uma forma de apreender, de guardar na memória, de tentar dizer o que algo é. No caso das pessoas, o nome toca ainda mais fundo, é talvez o elemento mais imediato de identidade e valor. Ouvir o próprio nome nos convoca, é por ele que nos reconhecemos e somos reconhecidos.
Nosso nome é o primeiro selo que recebemos e o último que permanece, gravado na lápide. Ele carrega a história da família que nos deu, a cultura que nos moldou e a identidade que, ao longo da vida, construímos. Mas saber o nome das coisas e das pessoas nos leva realmente até elas?
Em um tempo de identidades fluidas, rostos moldados, perfis cancelados e nomes alterados, o que é que permanece?
No abecedário agostiniano, a letra N nos reconduz ao essencial da sua pedagogia, o nome não é o fim do conhecimento, mas o início de uma jornada para dentro.
Ao falar de Agostinho de Hipona, não podemos ignorar o peso filosófico do seu próprio nome e sua relação com a linguagem. Nomear, para ele, não é apenas identificar, mas inaugurar uma pergunta sobre si mesmo no ato de confessar, além de perguntar a si e ao mundo questões fundantes da vida, como o que é o mal, a felicidade e, sobretudo, o que pretendemos quando falamos a alguém.
No “De Magistro”, Agostinho dialoga com seu filho Adeodato perguntando justamente isso, o que pretendemos quando falamos? A resposta é buscamos ensinar ou aprender. Logo essa resposta se revela insuficiente, porque, para Agostinho, nem as palavras nem os gestos ensinam por si mesmos.
Em sua concepção, a linguagem é composta por signos exteriores que, isoladamente, são incapazes de transmitir conhecimento, eles apenas apontam. O sentido não está na palavra, mas na alma que a compreende. A função da linguagem não é depositar verdades, mas conduzir o espírito ao que ele pode reconhecer interiormente, ao verbum cordis, a palavra do coração.
De forma mais radical, Agostinho sustenta que aquilo que vemos nas palavras é apenas o que se mostra aos olhos, formas e desenhos. A letra escrita não entrega o sentido, o que ela significa não está nela, mas na alma que a interpreta.
Mesmo palavras aparentemente vazias, como “nada”, não são ausência de significado, mas direcionam para uma experiência interior, a frustração de buscar e não encontrar. Assim, aquilo que lemos não são as coisas, mas sinais delas.
Para tornar isso evidente, o filósofo recorre a exemplos simples. Alguém diz “caminhar” e passa a andar. Outro aponta um caminho e diz “siga por ali”, tudo parece claro. Mas o que, de fato, foi ensinado? O gesto não entrega o significado, apenas desperta algo que precisa ser reconhecido por dentro pelo outro.
Nenhum sinal, seja palavra ou movimento, contém o conhecimento em si. Quando vemos alguém caminhar, não recebemos um conteúdo pronto, reconhecemos internamente o que já somos capazes de compreender, o gesto externo é ocasional, nunca causa do saber.
O verdadeiro aprendizado acontece quando a mente, voltando-se para dentro, encontra a verdade. O mestre exterior fala, indica, exemplifica, mas o Mestre interior, que identifica com a própria Verdade, é quem ensina de fato.
Em Agostinho, podemos saber o nome de uma pessoa e ainda assim não conhecê-la, podemos nomear o bem, a felicidade, Deus e permanecer distantes deles. As coisas e as pessoas não se deixam possuir pela linguagem, o que nelas há de mais próprio não se esgota no que dizemos delas, mas no que somos capazes de compreender interiormente. É por isso que, para o pensador, o conhecimento verdadeiro não se dá na superfície das palavras, mas na interioridade que as acolhe à luz da verdade. Nomear é um começo, gesto necessário e humano, mas é também um limite. Entre o nome e a essência há um intervalo que devemos atravessar para não ficar apenas com os sons.
Agostinho de Hipona deu grande importância à retórica, foi professor de oratória, dominava a arte do discurso e chegou a aspirar a esse lugar de prestígio público, inclusive escrevendo os panegíricos imperiais. Há um momento decisivo em que, ao ouvir um grande orador, desperta nele o desejo de também se tornar retórico, ou seja, o ponto de partida não é a busca da verdade, mas o fascínio pela eloquência e pelo reconhecimento.
No entanto, mais tarde, ao se voltar para a filosofia, ele percebe que construir a verdade a partir de habilidades retóricas não tem valor algum e, mais, pode ser algo profundamente vergonhoso, na medida em que permite persuadir sem compromisso com o verdadeiro. A palavra, quando desligada da verdade, torna-se instrumento de manipulação e promoção de injustiças.
Diante disso, penso que podemos trazer essa provocação para o presente: hoje há uma grande procura por cursos de oratória, mas o que exatamente se pretende com o ato de falar? Ensinar ou aprender — o quê? Técnicas de convencimento — sobre o quê? Ainda há espaço para pessoas comprometidas com a verdade que comunicam?
Nota
Sugiro o filme “Santo Agostinho — O Declínio do Império Romano” (direção de Christian Duguay, 2010), que retrata como a retórica pode ser perigosa quando desvinculada da verdade.
Ana Kelly Souto é doutora em Filosofia e Ciências da Religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.
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