Tiago Santinelli e o pânico moral: direito de expressão só quando lhe convém?
O episódio ocorrido no último domingo, 22, em frente ao Teatro da Maçonaria, em Belo Horizonte, onde o humorista Tiago Santinelli foi cercado por manifestantes religiosos e posteriormente conduzido pela polícia à delegacia, não é um caso isolado de confusão no meio humorístico. A verdade é que esse é um sintoma muito perigoso de uma liberdade de expressão capenga, que muitos no Brasil defendem, desde que o espelho não lhes devolva uma imagem incômoda ou crítica.
Mas para quem está por fora, vou fazer uma breve contextualização. Santinelli narra em suas redes sociais que tudo começou após um grupo comparecer à frente do teatro tentando impedir que seu show ocorresse. Sabem por quê? A temática do show era sobre religião de matriz africana, mais especificamente, sobre Umbanda. “Era um show sobre umbanda, não era o show ‘Anticristo’. É só racismo religioso apenas”, contou o jovem humorista. Além de temas religiosos, Tiago faz críticas sociais que pegam bem na ferida de muitos. E isso talvez tenha causado um pânico moral onde, especificamente os grupos religiosos, se sentiram no direito de protestar.
O mais curioso é que há um tempo, esses mesmos grupos protestaram contra o “politicamente correto” e o “cancelamento”, o que é curioso, já que tentaram calar um artista. Quando a satíra toca seus dogmas, o discurso muda rapidamente para a criminalização do risco. A empatia e o respeito ficam esquecidos dando espaço para o ódio e o preconceito.
Tentar silenciar um artista, o coagindo com atitudes como essas, além da pressão policial, mostra que a manifestação não é só sobre valores. Estão praticando uma censura velada, travestida de virtudes. Ficar ofendido é um direito de todos, mas tentar impedir que o público que comprou ingresso para aquele show que contradiz suas crenças é um ataque direto ao Estado Laico e plural. Se a ofensa pessoal fosse critério para prisão, boa parte da comédia e da política também, já estaria atrás das grades.
O ruído mineiro também ecoa em terras goianas. Não faz muito tempo em que a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) viu tramitar projetos que visavam multar pessoas com “ultraje a cultos”. Quando o Estado se dispõe a ser árbitro do que é sagrado e profano, a liberdade deixa de ser um direito para virar uma concessão vigiada.
A presença desses representantes de mandatos legislativos em portas de teatros, como foi no caso do Santinelli, apostos com o celular na mão, somente esperando o momento para registrar o que está prestes a acontecer, expõe o jogo tático e sujo. A defesa da fé torna-se um palco para o engajamento digital, onde a polícia é acionada como se fosse assessoria de imprensa de luxo do político para validar suas narrativas.
A condução de Tiago Santinelli a delegacia sob a alegação de “ofender sentimentos” é um recado perigoso. Isso mostra como a população ainda é incapaz de conviver com aquilo que vai contra a sua opinião ou a que acredita. Em uma democracia saudável, mesmo o riso mais ácido, deve ter trânsito livre. O contrário disso não é ordem, é tutela do pensamento pelo medo da represália.
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