Entre paixão e resistência: as mulheres que fazem do futebol um território também delas em Goiás
O amor pelo futebol é difícil de entender e ainda mais de explicar. É algo que precisa ser sentido. Trata-se de cultura, tradição centenária e paixão instantânea. Durante 90 minutos, nada mais importa: boletos, doenças e tristezas ficam em segundo plano. Só interessa se a bola vai entrar no gol e se será possível soltar o grito de vitória que fica entalado na garganta.
Para as mulheres, no entanto, essa experiência nem sempre é vivida de forma leve. Muitas vezes, o ambiente do futebol é atravessado pela ignorância, pela violência e pelo preconceito. Mesmo diante de xingamentos, assédios e situações de humilhação, elas seguem ocupando os estádios, resistindo e afirmando que o futebol também lhes pertence.
Para compreender a realidade das torcedoras em Goiás e a origem dessa paixão, a reportagem conversou com Amanda Dorta, torcedora do Atlético Goianiense; Andressa Borges, torcedora do Goiás; Camila Miranda, torcedora do Vila Nova; Janayna Carvalho, jornalista esportiva; Tatiane Colleti, administradora da página Comando Feminino; e Cristiane Mateus, administradora da página A Bola é Delas.
Como nasce a paixão pelo futebol
A relação com o futebol, para muitas delas, começa ainda na infância, geralmente dentro de casa. Amanda Dorta conta que seu vínculo com o Atlético Goianiense nasceu ao lado do pai, que frequentava o estádio com frequência e a levava desde pequena.
Andressa Borges viveu uma trajetória diferente. Embora seu pai fosse santista, foi um padrinho esmeraldino que despertou sua identificação com o Goiás, criando um laço afetivo que se mantém até hoje.
No caso de Camila Miranda, a influência paterna também foi determinante. Ela começou a torcer pelo Vila Nova acompanhando o pai e, mesmo depois que ele deixou de seguir o time, manteve a rotina de ir ao estádio e apoiar o clube.
Cristiane Mateus explica que sua aproximação mais profunda com o futebol aconteceu na vida adulta. Já corintiana, passou a se envolver com o esporte durante a faculdade, ao trabalhar na cobertura de futebol de várzea e campeonatos amadores. A partir daí, percebeu a importância de ampliar a presença feminina nesse espaço.
Tatiane Colleti, por sua vez, carrega o vínculo com o Paraná Clube desde a infância. Hoje sócia do time, ela também é responsável pela página Comando Feminino, que reúne mulheres torcedoras de diferentes clubes. Segundo ela, o projeto nasceu de forma simples, mas ganhou proporções maiores do que o esperado.
“Essa ideia surgiu em 2020, quando eu participava de outro projeto com meninas de outros clubes. A gente sentia falta de espaço para times do Sul e decidiu criar algo nosso. Com o tempo, o projeto cresceu, chegaram meninas de outros estados e hoje somos cerca de 40 mulheres espalhadas pelo Brasil”, relata.
Janayna Carvalho destaca que sua paixão pelo futebol surgiu de forma espontânea, sem influência masculina direta. Criada apenas pela mãe, começou a acompanhar jogos pela televisão e, posteriormente, transformou esse interesse em profissão, atuando na comunicação esportiva.
Mais do que um time, os clubes representam identidade, pertencimento e até refúgio emocional para essas mulheres. Andressa Borges resume essa relação ao falar sobre o Goiás. “O Goiás é parte da minha vida. Não é só futebol. É um lugar onde eu encontro amigos, onde consigo desligar do mundo e viver aqueles 90 minutos”, afirma.
Camila Miranda expressa uma relação intensa e contraditória com o Vila Nova, marcada por emoção constante. “Hoje é a minha maior raiva e a minha maior paixão ao mesmo tempo. Mas é prioridade. Pode ter o que for, se tem jogo, eu vou”, diz.
Já Amanda Dorta define o Atlético Goianiense como algo que ultrapassa o esporte. “O Atlético representa muito mais do que um time para mim. Ele faz parte da minha história, da minha família e da minha cidade”, destaca.
Discriminação e assédio no futebol
Apesar da paixão em comum, as experiências dentro dos estádios ainda são marcadas por episódios de preconceito e violência. Andressa Borges relata que, em diferentes momentos, teve sua presença questionada por ser mulher.
Camila Miranda viveu uma situação ainda mais grave. Ao ser tocada sem consentimento durante uma partida e procurar ajuda, ouviu de um policial uma resposta que revela a naturalização do problema. “Moça, olha o lugar que você está, cheio de homem”, lembra.
Amanda Dorta afirma que o assédio é uma realidade frequente. Tatiane Colleti reforça que esse cenário se repete em diferentes regiões do país. “A gente percebe que é praticamente a mesma coisa em todo lugar. Muda a região, mas os problemas são os mesmos: machismo dentro do estádio, xingamentos nas redes e gente dizendo que você não entende de futebol”, afirma.
Cristiane Mateus destaca que o machismo também se manifesta no ambiente profissional. “Já fui agredida verbalmente em um jogo em que estava trabalhando. Isso machuca, mas eu tento transformar em força para continuar”, relata.
Janayna Carvalho também afirma já ter enfrentado situações de assédio moral e sexual, tanto dentro quanto fora dos estádios, inclusive no exercício da profissão.
Jogos marcantes e histórias inspiradoras
Entre as memórias positivas, os jogos ocupam lugar central. Camila Miranda destaca a conquista do Vila Nova sobre o Anápolis como um dos momentos mais marcantes. Andressa Borges relembra a vitória do Goiás por 6 a 1 sobre o Palmeiras, enquanto Amanda Dorta aponta o jogo contra o Guarani, em novembro de 2023, que garantiu o acesso do Atlético Goianiense à primeira divisão.
O futebol também é espaço de transformação e inclusão. Janayna Carvalho compartilha uma experiência que considera inesquecível, ao levar uma torcedora cadeirante ao estádio pela primeira vez. “Ela nunca tinha ido a um jogo. Quando chegou lá, ficou muito emocionada, chorou bastante. Foi um momento muito marcante para mim”, conta.
Cristiane Mateus observa que a presença feminina nos estádios tem crescido de forma significativa nos últimos anos. “Hoje é comum ver mulheres à frente das torcidas, tocando bateria, participando ativamente. Também é cada vez mais comum ouvir mulheres falando de futebol com propriedade em qualquer ambiente”, afirma.
Tatiane Colleti destaca que o projeto Comando Feminino tem contribuído diretamente para ampliar esse espaço. “Muitas meninas começaram a ser notadas pelos próprios clubes e conseguiram oportunidades de atuar dentro do campo, fazendo cobertura. Ver isso acontecendo é uma realização enorme”, diz.
Conselhos para meninas que estão começando
Para quem está começando a se interessar por futebol, as entrevistadas compartilham um recado em comum: não desistir e ocupar o espaço com confiança.
Andressa Borges incentiva que as mulheres vivam essa experiência sem medo e sem se deixarem limitar por preconceitos. “Se você gosta, viva isso de verdade. Não veja como algo que não é para mulher. O estádio também é nosso espaço”, afirma.
Na mesma linha, Camila Miranda destaca que o preconceito ainda existe, mas não deve ser um fator de desistência. Segundo ela, é preciso maturidade para lidar com situações de desvalorização. “As pessoas vão tentar te diminuir, mas não vale a pena discutir. Continue indo, faça por você e não leve para o coração”, orienta.
Amanda Dorta reforça que a presença feminina nos estádios é, por si só, uma forma de transformação. “Não tenha vergonha de mostrar sua paixão. Quanto mais a gente ocupa esse espaço, mais forte a nossa presença se torna”, diz.
Tatiane Colleti amplia esse olhar ao destacar a importância do coletivo e do incentivo entre mulheres. Para ela, acompanhar o time e incentivar outras torcedoras também faz parte da construção desse espaço. “Continue acompanhando seu time e incentivando outras mulheres. A gente merece esse espaço”, afirma.
Cristiane Mateus, por sua vez, ressalta a necessidade de resistência diante das dificuldades. “Não abaixem a cabeça. Quando a gente faz com amor, faz bem feito. O lugar da mulher é onde ela quiser”, declara.
Por fim, Janayna Carvalho chama atenção para a importância da preparação em um ambiente que ainda exige mais das mulheres. “A gente ainda precisa provar mais. Então estude, se prepare e não se intimide com opiniões alheias”, conclui.
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