Grupo Globo fechou mesmo com Flávio Bolsonaro para atacar Lula da Silva? Não parece…
A direita e a esquerda, quando se trata de comentar sobre a imprensa, são irmãs siamesas. Suas críticas são parecidas.
No momento, sites ligados ao PT e ao presidente Lula da Silva — alguns deles muito bem-feitos — apressam-se a sustentar que o Grupo Globo, que inclui a TV Globo e o jornal “O Globo”, está “apoiando” o senador Flávio Bolsonaro (PL) para presidente da República.
Se estiver, é um direito. Afinal, não há nenhum empecilho de um meio de comunicação definir apoio a um candidato a presidente ou governador.
Em 2022, na disputa entre Jair Bolsonaro, do PL, e Lula da Silva, do PT, a turma do primeiro acusou a TV Globo, sobretudo, de “atacar” o postulante da direita e de “defender” o candidato da esquerda. Fato, meio fato ou fake news?
Como Jair Bolsonaro havia prometido “destruir” o Grupo Globo — o que não conseguiu em quatro anos como presidente —, é natural que a família Marinho, controladora da TV Globo, de “O Globo” e do “Valor Econômico”, tenha se posicionado contra a direita.
Então, se houve apoio à esquerda, na disputa presidencial, tem a ver mais com defesa dos próprios interesses — jornalísticos e financeiros — do que com adesão ideológica.
Durante a maior parte do governo de Lula da Silva, a Globo, notadamente a GloboNews, pareceu alinhada, mas sem deixar de manter instâncias críticas — como Joel Pinheiro, Merval Pereira e Demétrio Magnoli. Pode-se falar num apoio brando ou light.
Fora do poder, Jair Bolsonaro foi tratado, se não como “inimigo”, ao menos como alvo a ser criticado. Lembrando que o ex-presidente havia prometido “acabar” com a Globo.
Banco Master & Daniel Vorcaro e a lama
Por que, exatamente, a esquerda, ou parte, liberou suas micro-armas — portais e blogs — para atacar o Grupo Globo?
Porque, como a direita, a esquerda quer adesão total, ou seja, exige apoio e não jornalismo equilibrado e objetivo.
Os casos INSS e Banco Master & Daniel Vorcaro trouxeram a questão da corrupção para o centro da política (dos três poderes) e do debate. Os indícios sugerem que esquerda, centro e direita se lambuzaram nos dois esquemas. Falta dimensionar quem emporcalhou-se mais, o que levará algum tempo para se estabelecer. É uma tarefa para a Justiça e para pesquisas rigorosas, para além da circunstância do jornalismo factual do dia a dia.
A delação premiada de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, é, por certo, o iceberg. Mas, para assegurar que a montagem e o funcionamento do esquema serão expostos, é preciso obter informações objetivas, por delação ou não, dos personagens coadjuvantes — a ponta do iceberg.
Além dos agentes secundários — talvez Daniel Vorcaro não seja o cabeção deste esquema tão poderoso e bilionário (seria um laranjão?) —, é provável que existam figuras ainda mais graúdas da República, tanto do mundo empresarial-bancário (quem sabe Nelson Tanure, que foi dono até do “Jornal do Brasil”, com um editor famoso, Mario Sergio Conti, nos seus quadros de funcionários) quanto da seara política.
Mais do que a Globo, é “O Globo”, por meio de dois jornalistas, Lauro Jardim (tanto que Daniel Vorcaro instigou “Sicário”, um pistoleiro, a quebrar seus dentes) e, sobretudo, Malu Gaspar, que está destrinchando o caso Banco Master.
O jornalismo feito por Malu Gaspar tem sido implacável — e verdadeiro — em relação a qualquer um dos investigados. Suas reportagens — da equipe que coordena — são corajosas e sólidas. Ás vezes são contestadas, mas, a rigor, não desmentidas.
Malu Gaspar, como repórter, opera de modo seletivo? Não. Suas reportagens mencionam políticos dos vários espectros ideológicos, banqueiros, entre outros. O governador do Distrito Federal. Ibaneis Rocha, do MDB, que nada tem de esquerdista, é citado com frequência nas reportagens de “O Globo”.
Por que não se pode mencionar que Daniel Vorcaro falou com Lula da Silva, sob instigação de Guido Mantega, ambos de esquerda?
O melhor jornalismo a respeito do caso Banco Master & Daniel Vorcaro é, sem dúvida, feito por “O Globo”. Tanto que outros jornais dizem o seguinte, o que é constrangedor: “Como informou ‘O Globo’ e nós confirmamos”. Ora, como confirmar o que já havia sido confirmado?
Careca do INSS e Lulinha da Silva
No esquema articulando no INSS, pelo qual aposentados foram tungados por uma quadrilha, da qual supostamente participava Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como Careca do INSS, a lama espalha-se por todos os setores — do governo de Jair Bolsonaro ao de Lula da Silva. A lama aí é democrática: é de todos: esquerda, centro e direita.
O que a imprensa está mostrando não é contra Jair Bolsonaro ou contra Lula da Silva. Está relatando os fatos. Pode ser que o envolvimento de Fábio Luís Lula da Silva, Lulinha, seja menor do que se prospecta, e até que seja nenhum. Mas existe mesmo alguma ligação entre Lulinha e o Careca do INSS, e talvez não tenha a ver com o INSS.
Não contar a história de Lulinha e seu enlace, alguma conexão, com o Careca do INSS seria não fazer jornalismo.
Até o momento, os jornais, notadamente “O Globo” — mas também a “Folha de S. Paulo” e o “Estadão” (este, de fato, mais engajado contra Lula da Silva e, sobretudo, contra o Suprem Tribunal Federal) —, estão se comportando com o máximo de seriedade. Aqui e ali, notadamente nas páginas de opinião, há algum excesso.
O caos absoluto que está sendo criado — e não exatamente pela imprensa, mas pela corrupção sistêmica do país — pode beneficiar Flávio Bolsonaro? Pode. Mas o quê fazer? Não dá para silenciar a respeito dos escândalos “ecumênicos”.
Flávio Bolsonaro é lobo em pele de cordeiro? Pode até ser. Mas está se comportando com uma habilidade política que o pai não teve. Jair Bolsonaro mais afastava do que agregava possíveis aliados. O senador opera noutra linha: para tentar chegar ao poder, aproxima-se do centro e da direita moderada, em busca de apoio, e está agradando.
Se o Grupo Globo estiver apostando em Flávio Bolsonaro, secundando parte substancial do mercado, é um risco que decidiu correr.
Um risco que correu em 1964, quando apoiou o golpe civil-militar e a ditadura, e em 1989, ao contribuir para a vitória de Fernando Collor para presidente da República (chegou a editar um debate para favorecer o postulante da direita e prejudicar o candidato da esquerda, Lula da Silva).
Há pouco tempo, os Marinho, filhos de Roberto Marinho, pediram desculpas por terem apoiado, sem relutar um minuto, a ditadura. Em relação ao político de Alagoas, o caçador de marajás, a Globo ainda não pediu desculpas. Firmar alianças com aquilo (aquele) que não se conhece direito é sempre um risco. Às vezes o “monstro” tem cara de ursinho de pelúcia. Fernando Collor era assim. Flávio Bolsonaro seria diferente? Não parece.
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