Nem mãe de agressor, nem mãe de vítima
Na última semana, uma notícia me fez chorar de imediato. Uma jovem de 17 anos vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro. A primeira coisa que eu pensei foi na Cecília e em todas as formas de proteger a minha filha, sabendo que não há como proteger uma filha para sempre das milhões de coisas que podem lhe acontecer. E depois eu pensei nas mães dos meninos, aqueles cujo rosto estavam estampados nos jornais como foragidos por um crime tão cruel. Eu não quero nunca, que meu filho seja uma foto estampada no jornal por um estupro. Eu não quero nunca que minha filha seja uma vítima. E pensar em tudo isso é avassalador porque a educação não é só o que acontece em casa, mas é principalmente o que acontece aqui. E se nós educamos bem os nossos filhos, com moral, valores, respeito, exemplo. Quem mais os educa? A internet? Os amigos? O filme? Os amigos da família? O que mais a gente pode fazer?
Não é um caso isolado. Essa é a primeira questão que precisa ser dita. Não são monstros isolados, distantes. É comum. É planejado. É repetido. Há menos de 30 dias, Goiás era notícia nacional com um pai que matou os dois filhos e se matou na sequência. Uma mãe que foi não conseguiu sequer enterrar os filhos em paz. Julgada, destruída. Só aqui, no nosso Estado, 60 mulheres foram mortas em 2025 só por serem mulheres. Uma freira estuprada. Mulheres mortas. Violentadas. Silenciadas. Menina de 12 anos sendo estuprada por um cara de 35 que não se sente intimidado: nem pela polícia, nem pela sociedade, nem pelo judiciário. Meninas que são mães aos 9 anos.
Ser mulher é foda. É doloroso. Mas a gente não vai desistir. E a gente vai educar uma nova geração diferente, ainda que isso não seja só responsabilidade nossa. Cadê a mãe desse menino? Não é assim que dizem?
O primeiro semestre de de 2025 registrou 187 estupros por dia no Brasil, segundo o Mapa da Violência. Isso, fora os números que não viram estatísticas. Fora as meninas e mulheres silenciadas com medo, vergonha, com sensação de impunidade independente da denúncia. No ano passado, mais de 1.400 mulheres morreram no país vítimas de feminicídio. São 4 mulheres todos os dias. Pode ser eu, você, nossa vizinha, a professora do nosso filho, a juíza da cidade, a moradora de rua que te pediu um prato de comida. Negras são maioria, mas absolutamente nenhuma de nós está imune. Com maior ou menor risco, todas nós sentimos medo.
Aos 12 eu corri de estuprador na rua e entrei na casa de um estranho pra me salvar. Eu nem sei quantas vezes fui assediada dentro dos ônibus na adolescência e quantas orações eu fiz enquanto caminhava sozinha por ruas escuras entre os pontos de ônibus e a minha casa. Tenho amiga que foi violentada por ministro da igreja, pai de família. Eu tinha medo da rua. Mas a minha casa também tinha agressão. Dezenas de vezes vi minha mãe aguentar gritos e ameaças de morte. Nenhuma mão encostava nela, mas os murros acertavam as paredes. “Eu mato você e suas filhas”. O homem sabe que atingir a criança é despedaçar a mãe. E sem as mães, o futuro dessas crianças pode ser completamente diferente do que seria. A estimativa é que 3 mil crianças sejam órfãs do feminicídio todo ano no Brasil.
Neste mês de março estou trabalhando, pela segunda vez, com a caravana Maria da Penha nas escolas. Um projeto goiano que foi lançado em 2016, percorre o Brasil e que usa da literatura infantil em quadrinhos para conscientizar crianças. O lançamento foi nessa semana e Manoela Barbosa, idealizadora do projeto, disse uma coisa que me acertou em cheio. “A violência contra a mulher começa quando um menino aprende que pode bater e uma menina que precisa suportar”. Esse projeto é importante demais e deveria estar em todas as escolas do Brasil. Mas o combate à violência precisa ser um pacto coletivo. Precisamos falar sobre violência nas escolas, em casa, no almoço de domingo, na mesa do bar e na pelada da semana. Tem que ser assunto de homens e mulheres. De escolas e famílias. De poder público.
É urgente. E começa na misoginia que a gente deixa passar. No preconceito disfarçado de brincadeira. Na ‘piada’ que ninguém repreende e no exemplo que ninguém contesta. Pelo direito de viver, de se separar sem ser morta. De não matarem nossos filhos. De não violentarem nossas meninas em emboscadas. De não vermos nossos filhos estampados nos jornais. Nem mãe de agressor, nem mãe de vítima, nem morta, nem expulsa dos velórios. Feliz dia da Mulher pra vocês: sem flor, nem chocolate.
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