Livro em quadrinhos e debates nas escolas reforçam rede de proteção à mulher em Goiás
O projeto “Maria da Penha nas Escolas” vai percorrer 12 cidades goianas neste mês de março. O objetivo é entregar exemplares do livro em uma caravana de educação sobre as formas de violência contra a mulher. O lançamento oficial da ação aconteceu nesta segunda-feira, dia 2, na Federação Goiana de Municípios (FGM). Entre as autoridades presentes estavam a vice-prefeita de Goiânia, Cláudia Lira, e os vereadores da capital Aava Santiago (PSB) e Edward Madureira (PT).
A caravana vai percorrer os municípios de Bela Vista de Goiás, Cidade de Goiás, Iporá, Matrinchã, Porangatu, Cocalzinho de Goiás, Goianésia, Aparecida de Goiânia, Orizona, Silvânia, São Miguel do Passa Quatro e Senador Canedo. Além dos 20 mil exemplares do livro que serão distribuídos entre as cidades, estudantes de escolas públicas terão acesso a palestras e debates sobre o tema.
Lançado em 2016 e idealizado pela pesquisadora e gestora de projetos Manoela Barbosa, o projeto utiliza literatura infantil em quadrinhos, ilustrada pela artista visual Zaia Ângelo. Mais de 45 mil exemplares já foram distribuídos em 65 cidades de cinco estados brasileiros para conscientizar crianças.
A secretária da Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), Dra. Cristina Lopes, é sobrevivente de uma tentativa de feminicídio ocorrida em 1986. Ela teve 85% do corpo queimado após ser incendiada por um namorado que dizia amá-la, mas ateou fogo nela com um litro de álcool e três palitos de fósforo.
“Sobreviver a um crime de gênero é algo desafiador, ainda mais quando envolve queimaduras. É carne viva, e não é apenas o corpo físico, mas também o corpo emocional. São cicatrizes que vão marcar para a vida inteira”, desabafa ao Jornal Opção Dra. Cristina Lopes.
A secretária da Procuradoria da Mulher da Alego escreveu o prefácio do livro “Maria da Penha nas Escolas”. “Esse é um material que pode potencializar essa criança para um outro caminho. Ela pode romper com essa estrutura de violência doméstica e construir um novo ciclo, um ciclo com pessoas civilizadas, com relações eficazes, em que o amor seja o grande centro e o grande caminho”, afirma.
“Estamos muito felizes por participar do lançamento desse livro, que vai realmente promover a verdadeira prevenção, envolvendo um público muito jovem, crianças e adolescentes”, disse a vice-prefeita de Goiânia ao Jornal Opção, Cláudia Lira.
Ainda de acordo com a vice-prefeita, existe um plano de governo para a institucionalização da rede protetiva da mulher. “Já estamos em tratativas e elaboramos um documento construído a várias mãos, de forma transversal, envolvendo saúde, educação, assistência social e segurança”, complementa.
Maria da Penha nas Escolas
A iniciativa surgiu a partir de uma provocação relacionada a um trabalho que Manoela Barbosa desenvolvia em uma escola na cidade goiana de Morrinhos. “Durante o meu mestrado, entre várias palestras sobre Direitos Humanos e Cidadania, fui convidada a realizar uma atividade voltada à violência contra as mulheres”, explica ao Jornal Opção.
Foi por meio dessa palestra e da roda de conversa com os alunos que surgiu a demanda por materiais didáticos permanentes na unidade escolar. A partir disso, Manoela buscou livros, cartilhas e outros materiais para envio, mas não encontrou nada específico. “Já que não tem nada, a gente vai criar”, disse na época.
“Quando a Lei Maria da Penha foi aprovada, foram atribuídas aos estados uma série de responsabilidades e diretrizes que precisam ser efetivadas em termos de políticas públicas, para que haja maior abrangência em todo o processo”, afirma Manoela Barbosa.
A idealizadora do projeto explica que existem a Lei de Diretrizes e Bases e diversas outras determinações sobre educação para o combate à violência contra a mulher. “Documento não falta. Mas, daquilo que está na lei para efetivamente acontecer em formato de ação, ainda há lacunas. Existem planejamentos pedagógicos em várias instâncias estaduais e municipais, mas nós chegamos como uma soma”, afirma.
As cartilhas são distribuídas gratuitamente em todas as caravanas. As crianças e os profissionais da educação recebem os exemplares e os levam para casa, ampliando o debate junto às famílias.
Livro em quadrinhos
O livro em quadrinhos, voltado para crianças a partir de 10 anos, conta a história da farmacêutica cearense que deu nome à Lei e se tornou símbolo da luta contra a violência. Além da versão colorida para alunos e profissionais da educação, o projeto conta com uma edição em tamanho ampliado e em braille, destinada a pessoas com deficiência visual. Em 2026, o projeto é realizado com recursos do Programa Goyazes, do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura.
“Apenas no primeiro semestre de 2025, o Mapa da Violência apontou uma média de 187 estupros por dia no Brasil. Além disso, foram registrados mais de 1.400 casos de feminicídio, segundo o Mapa da Segurança Pública de 2025. São pelo menos quatro mulheres mortas por dia. Os números são crescentes e alarmantes”, alerta Manoela Barbosa.
Em todo o país, 71% das agressões ocorreram na frente de outras pessoas, incluindo crianças. As vítimas são, em sua maioria, mulheres jovens entre 25 e 34 anos (21%). Além disso, a maior parte dos casos de feminicídio (64,3%) ocorreu dentro de casa.
Em Goiás, 60 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, colocando o estado na sexta posição nacional nesse tipo de crime. O Painel Interativo de Violência contra a Mulher, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), registrou em Goiás 55,6 mil novos processos relacionados à violência contra a mulher em 2025. Os dados, referentes ao período de janeiro a novembro, já ultrapassavam os mais de 50 mil casos registrados em 2024. No mesmo período, a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 — recebeu 10.297 denúncias e pedidos de orientação.
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