Goiás é o Estado com melhor produtividade de café por hectare do Brasil
Quem não gosta daquele cafezinho? O grão que é transformado na bebida mais consumida do mundo e a segunda mais apreciada pelos brasileiros em 2025 tem ganhado espaço nas áreas destinadas às plantações de Goiás. Apesar de ainda não configurar entre os que mais produzem em números absolutos, o Estado tem sido protagonista quando falamos em produtividade de café por hectare.
De acordo com números da Secretaria de Estado de Pecuária e Abastecimento (Seapa), Goiás teve uma produção de 215,5 mil sacas em 5,5 mil hectares plantados, o que resultou em uma produtividade de 38,6 sacas por hectare. Para se ter uma ideia, em Minas Gerais — considerado o maior produtor — varia de 25 a 30 sacas por hectare.
No ano passado, Goiás exportou 14,5 mil toneladas de café, o que resultou em US$ 105,6 milhões. Resultado que colocou o Estado em sexto entre os que mais exportaram, tendo Alemanha, Itália, Estados Unidos, Rússia e Países Baixos como os principais destinos do café do Cerrado.
A gerente de Inteligência de Mercado Agropecuário da Seapa, Christiane Amorim, explica que a produção em solo goiano é exclusivamente do café arábica, que tem uma variedade mais saborosa e é amplamente utilizada pela indústria. Segundo ela, fatores como clima, altitude e característica do solo acabam influenciando na qualidade do grão que é transformado na bebida mais querida dos brasileiros e de alguns outros países.
Christiane Amorim afirma que Goiás ainda não tem determinada expressividade em volume produzido, como é o caso de Minas Gerais e Espírito Santo, mas que caminha para isso.
“Esse resultado é fruto de investimentos em tecnologia, boas práticas de manejo e sustentabilidade. O produtor goiano tem investido em técnicas que elevam a eficiência da lavoura, o que impacta positivamente tanto na produtividade quanto na qualidade do grão”, destaca.
A gerente destaca que o café passa por ciclo natural que impacta na quantidade da produção de um ano para o outro. Em 2025, por exemplo, a quantidade produzida representou 6% a menos do total colhido em 2024.
“Essa queda está relacionada à bienalidade do café, um fenômeno natural da planta em que há alternância entre um ano de alta produção e outro de menor produtividade. Em 2025, vivenciamos a bienalidade negativa”, pontua.
A gerente destaca que Goiás conta com cerca de 15 municípios produtores de café, que ficam, principalmente, em regiões de clima mais ameno e maior altitude. Cristalina, Cabeceiras de Goiás, Campo Alegre, Ipameri e Paraúna são alguns dos municípios produtores.
Produção de 28 anos
422 hectares e cerca de 2,2 milhões de pés de café. Essa é a quantidade presente na fazenda gerenciada por nosso personagem, que preferiu não ser identificado. A plantação fica em uma área a 80 quilômetros de Paraúna. Após 28 anos de plantio da cultura, ele explica que a altitude influenciou muito na escolha da produção do café.
Pela quantidade plantada, a fazenda conta com plantações de diferentes idades, o que não leva a uma média única de produtividade, mas ele afirma que cada hectare varia de 30 a 50 sacas colhidas.
O gerente explica o processo de plantação. “Primeiro é feito o sulco na terra, como no plantio de cana. Colocamos adubo, esterco e plantamos as mudas. A primeira safra vem com cerca de dois anos e meio. Após a colheita, o café passa pelo lavador, onde é separado em verde, maduro e boia. Cada tipo segue separado para o terreiro, depois para o secador e, em seguida, vai para a tulha de madeira, onde descansa. Por fim, segue para o beneficiamento, quando é descascado”.
Outro fator importante que influencia a produção é a irrigação. Na fazenda, dois modelos são utilizados: o pivô, que abrange uma grande área, e o de gotejamento, que mantém a planta aguada principalmente no período de seca. Cada um tem suas vantagens particulares.
“O pivô facilita porque exige menos mão de obra. Já o gotejamento consome menos água, o que é importante, já que enfrentamos períodos de escassez. Em termos de eficiência, os dois funcionam bem, mas o gotejamento demanda mais trabalho por causa das mangueiras sob os pés”, pontua.
O sistema de gotejamento também ganha mais um ponto positivo devido às chuvas irregulares causadas pelas mudanças climáticas. O gerente destaca que, por causa disso, em diversas ocasiões, a irrigação precisou ser estendida em períodos aos quais já se eram aguardados um volume expressivo de precipitação.
“Às vezes chove em maio, às vezes não. Em alguns anos, passamos de novembro ainda irrigando porque a chuva não foi suficiente. Essa irregularidade afeta a florada. Antes tínhamos duas ou três floradas por ano. Hoje podemos ter quatro ou cinco. Isso faz com que, na colheita, haja frutos em diferentes estágios: maduros, verdes e até já caindo no chão. Isso dificulta e impacta a qualidade”, conta.
Na visão do gerente, o principal desafio do cultivo do café é a mão de obra para se trabalhar e a montagem da estrutura necessária que o processo de colheita exige. Entre as facilidades destacadas por ele está justamente o uso da tecnologia na área da irrigação.
Aventura
O produtor Laerte Antônio de Oliveira decidiu investir no café recentemente. Para isso, realizou o plantio de 150 pés na sua fazenda em Ceres, no Norte goiano. Ele explica que buscou conhecer mais sobre a cultura e viu que Goiás já tinha sido um polo cafeeiro nas décadas de 1960 e 1970.
Para ele, investir em atividades já consagradas, como pecuária e cana-de-açúcar, não seria tão viável devido ao tamanho das suas propriedades. Ele buscou conhece uma cultura perene e encontrou no café essa oportunidade de investimento. Laerte conta que buscou ajuda especializada em plantação do grão para minimizar possíveis desperdícios e otimizar ao máximo a plantação.
“Contratei uma equipe especializada de fora da região, porque aqui não há mão de obra com prática em café. Em cerca de dez dias, eles concluíram o plantio. Também contratei um funcionário com experiência na cultura para me acompanhar no manejo”, assinala.
Ao todo, ele conta que foram investidos R$ 3 milhões, que incluíram compra de maquinários necessários e outras necessidades para o plantio. Se for considerar apenas a formação da lavoura, o custo oscilou entre R$ 60 mil a R$ 70 mil por hectare.
Na sua propriedade, Laerte de Oliveira conta que foi necessário fazer uma análise e correção do solo, além do sulcamento (abertura de fenda no solo para o plantio das mudas), entre outros preparos.
“Optei pelo plantio manual, mesmo tendo comprado máquina, porque considerei mais preciso. Após o plantio, há tratos culturais como controle de mato, pulverizações e adubação. Implantei irrigação por gotejamento, que é fundamental hoje. O sistema permite economia de água e aplicação de adubo diretamente na raiz”, conta.
A primeira colheita deve ocorrer daqui há dois anos e meio e a expectativa é que a plantação atinja seu ápice no seu quarto ano. De maneira inicial, ele prevê a colheita entre 50 e 60 sacadas. “Se chegar a 70 ou 80, será um resultado muito bom para a região.”
O produtor adianta que, se o desenvolvimento for satisfatório, pretende plantar mais 100 mil pés na próxima safra, que deve acontecer ainda este ano. Tudo isso vai depender da disponibilidade de água, pois “café sem irrigação hoje não é viável”.
Café de atitude
Outra pessoa que se aventurou no plantio de café foi Giovanni Machado Gonçalves, pai de Pedro Machado, que conversou com a reportagem do Jornal Opção. Ele conta que, na propriedade do pai, em Goianésia, foi feito um experimento com três hectares de café arábica. “O que mais nos move nesse momento é curiosidade. É saber se isso vai produzir ou não.”
Segundo Pedro Machado, a decisão pelo plantio do grão veio após acompanhar estudos conduzidos no Instituto Federal Goiano (IF Goiano), em Ceres, que avaliaram 35 cultivares de café arábica em condições de Cerrado. Destas, 11 apresentaram melhor desempenho produtivo e adaptação climática.
“O que esse experimento pode quebrar é o entendimento de que café só dá em altitude. Existe café de altitude e café de atitude”, brinca, mas falando sério.
Na propriedade da família, cada hectare recebeu uma variedade diferente: Asa Branca, Acauã Novo e Catucaí Amarelo 2SL. Ao todo, são cerca de 15,8 mil pés plantados, com média de 5,2 mil plantas por hectare.
Pedro Machado, assim como Laerte de Oliveira, também destaca a expectativa de colheita nos dois anos e meio da plantação. A estratégia adotada inclui irrigação por gotejamento e controle hídrico para indução da florada.
“Em agosto, quando estamos no período seco, eu coloco água no pé da planta. Ela solta a flor e eu mantenho a irrigação para consolidar e encher o grão”, relata.
A expectativa inicial é de produtividade em torno de 50 sacas por hectare, caso as condições se confirmem favoráveis. A produção, no início, deve atender o mercado local. “Três hectares são cerca de 150 sacas. Isso o próprio comércio regional absorve.”
Caso o resultado seja positivo, a área pode ser ampliada dentro da estrutura já irrigada da fazenda, que pode chegar a mais de 200 hectares.
Pedro Machado se mostra entusiasmado com o plantio da cultura em Goiás e diz acreditar que o Estado tem potencial para competir com grandes produtores em volumes absolutos. Além disso, ele destaca que já tem conversas com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) para debater a criação de um Selo de Indicação Geográfica do Café do Cerrado Goiano.
“A ideia é construir uma identidade própria, assim como existe o Café do Cerrado Mineiro. O café goiano não será melhor nem pior, mas terá características próprias”, pontua.
Ciência aliada ao desenvolvimento
Como citado pelo entrevistado anterior, o trabalho científico para identificar o desenvolvimento do café em Goiás foi feito no IF Goiano — Campus Ceres. O responsável por isso é o professor Cleiton Mateus Sousa, que também é gerente de pesquisa agropecuária da Emater Goiás. Segundo ele, os primeiros trabalhos tiveram início em 2013, a partir de uma chamada pública da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), dentro da modalidade de Desenvolvimento Científico Regional.
A elaboração da proposta se deu inicialmente junto com o pesquisador aposentado Wellington Pereira (falecido). “Ela foi aprovada e buscamos as cultivares de café arábica mais cultivadas no Brasil. Conseguimos as sementes, produzimos as mudas e implantamos o experimento no campus em abril de 2015. Desde então, passamos a avaliar as plantas periodicamente, observando altura, número de ramos, características agronômicas e morfológicas, além da produtividade.”
O professor destaca que mais recentemente a qualidade da bebida também entrou no radar de avaliação. Das 35 cultivares, 11 se destacaram, tendo produtividade acima da média nacional, algumas registrando mais que o dobro.
“Essas mesmas 11 cultivares obtiveram pontuação acima de 80 pontos na análise sensorial realizada pelo Instituto Federal do Espírito Santo, classificando-se como café especial. Isso mostrou que é possível produzir, em Goiás, café competitivo em produtividade e qualidade”, afirma.
Ele conta que, após 11 anos de pesquisa, a cafeicultura tem se tornado uma vitrine no Estado a partir das técnicas adequadas para o plantio. Pelo projeto, 15 produtores estão em Goianésia, um em Rialma, outro em Rianápolis, e também foi implantado um projeto em Mundo Novo — este apenas com mulheres à frente do plantio dos grãos. “Nosso objetivo é consolidar essa produção regional com qualidade e volume.”
Ele explica que o projeto não consiste em produção de mudas em larga escala e, sim, indicar o material genético mais adequado e proporcionar orientação técnica. Para fins demonstrativos, foram produzidas 800 mudas, mas que, para produtores que trabalham em maior escala, as aquisições dos brotos são feitas em viveiros credenciados.
Cleiton Mateus destaca que por anos se repetiu que Goiás não teria capacidade para plantação de café, ao mesmo tempo que nunca havia sido feito um experimento genético para identificar quais cultivares poderiam se adaptar ao solo goiano. “Hoje temos materiais genéticos mais modernos e adaptados. A pesquisa mostra que, com a escolha correta da cultivar e manejo adequado, é possível produzir café em Goiás com bons resultados.”
Cleiton Mateus destaca que Goiás difere de outros Estados que plantam café pelo fato de ter um clima bem definido, com estação seca e chuvosa, o que acaba favorecendo o manejo. Além disso, o solo do Cerrado, quando bem corrigido, pode gerar altas produtividades, como já ocorreu com soja e milho.
O mestre explica a importância da diversificação de culturas na área da agricultura: “É uma alternativa de diversificação para o produtor. O café é a segunda bebida mais consumida no mundo, e o Estado não produz tudo o que consome. Pode ser uma excelente opção para agricultura familiar, agregando valor em pequenas áreas, além de representar nova fonte de renda para o Estado”.
Mesmo com os mais diversos avanços, Cleiton Mateus afirma que a pesquisa não para e já adianta quais serão os próximos objetivos com os trabalhos realizados.
“Estamos investigando diferenças anatômicas e fisiológicas entre cultivares que apresentam melhor desempenho em Goiás. Também pretendemos ampliar os testes com outros materiais genéticos. Além da pesquisa acadêmica, continuamos trabalhando em campo, implantando experimentos regionais e fortalecendo a integração com produtores”, finaliza.
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