Nem a fé protege: quando a violência atravessa até os muros do sagrado
A morte da freira Nadia Gavasnki, de 82 anos, dentro de um convento no interior do Paraná, não é apenas mais um caso policial. É um retrato brutal de uma realidade que insiste em nos confrontar: a violência contra mulheres não escolhe idade, não escolhe lugar, não respeita símbolo, fé ou vocação.
Uma idosa. Religiosa. Dentro de um convento.
Se nem esse espaço que culturalmente associamos a recolhimento, silêncio e proteção foi suficiente para impedir a violência, o que isso nos diz sobre o momento que vivemos?
A cada novo caso, a sociedade reage com choque. Mas o choque tem sido passageiro; a violência, estrutural. Mulheres continuam sendo agredidas, estupradas e assassinadas em suas casas, nas ruas, no trabalho e, agora, até em ambientes que simbolizam o sagrado. Não se trata de um fato isolado. Trata-se de um padrão.
É preciso dizer com clareza: a violência sexual não tem justificativa. Não é sobre roupa, comportamento, idade ou circunstância. Nunca foi. A pergunta “o que ela fez?” ainda ecoa em muitos espaços às vezes de forma explícita, às vezes disfarçada de dúvida. Essa lógica, além de cruel, transfere a responsabilidade do agressor para a vítima. E isso também é violência.
Quando uma mulher de 82 anos é vítima de estupro, qualquer narrativa que tente buscar explicação na conduta dela desmorona por completo. O problema não está na vítima. Está na cultura que naturaliza o desrespeito ao corpo feminino, que relativiza agressões e que demora demais para transformar indignação em política pública efetiva.
Casos como esse exigem mais do que comoção momentânea. Exigem debate sério sobre prevenção, proteção e responsabilização. Exigem investimento em segurança, investigação qualificada, apoio às vítimas e educação para o respeito. Exigem também que deixemos de tratar violência contra a mulher como estatística rotineira.
Não é normal. Não pode ser normal. Quando uma religiosa é violentada e morta dentro de um convento, não estamos diante apenas de um crime hediondo. Estamos diante do fracasso coletivo em garantir o mínimo: o direito de viver sem medo.
A fé pode confortar. A Justiça precisa agir. E a sociedade precisa, finalmente, decidir que não vai mais tolerar o intolerável. Porque o mundo não está inseguro para mulheres por acaso. Está inseguro porque ainda permitimos que seja.
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