A barbárie contra os animais e o fracasso da nossa humanidade
A violência contra animais no Brasil deixou de ser exceção para se tornar um retrato perturbador daquilo que há de mais cruel na sociedade. Em um país que se diz afetuoso, solidário e defensor da vida, cães e gatos seguem sendo espancados, queimados, envenenados e torturados por pura maldade. Não se trata de fome, defesa ou medo: trata-se de prazer em ferir, de covardia travestida de coragem, de uma humanidade que falha quando escolhe a brutalidade como linguagem.
O caso do cão comunitário Orelha, de 10 anos, espancado por adolescentes com objeto contundente, na Praia Brava, área nobre de Santa Catarina, é um daqueles episódios que deveriam chocar a consciência coletiva. Orelha não era uma ameaça, não atacava ninguém, não representava perigo. Era cuidado por comerciantes e frequentadores, fazia parte da rotina daquele espaço público. Ainda assim, foi alvo de uma violência extrema, gratuita e injustificável. Quem agride um animal indefeso não age por impulso: age por escolha. Em razão da gravidade do ferimento na cabeça, Orelha precisou ser submetido à eutanásia.
Mais grave ainda é a postura de familiares que, diante da barbárie, optam por defender os adolescentes acusados do crime, como se a brutalidade fosse um erro menor, um “exagero” juvenil ou um simples “ato impensado”. Essa conivência não apenas relativiza a violência, como a legitima. Ao proteger agressores sem reconhecer a gravidade do ato, essas famílias ajudam a formar adultos que naturalizam a crueldade e desprezam a vida — qualquer vida que considerem inferior.
Orelha não é um caso isolado. O Brasil assistiu, revoltado, à tentativa de afogamento do cão caramelo, amigo de Orelha, que por sorte conseguiu se salvar, e à violência contra o cão comunitário Abacate, morto a tiros no Paraná. Histórias que se repetem em diferentes lugares, com os mesmos elementos: covardia, impunidade e uma assustadora falta de empatia. Muda o nome do animal, muda o cenário, mas a maldade permanece a mesma.
É preciso dizer com todas as letras: quem maltrata um animal demonstra um grave desvio de caráter. Estudos, dados e a própria experiência social mostram que a violência contra animais frequentemente antecede ou acompanha a violência contra pessoas. Ignorar isso é fechar os olhos para um problema estrutural. Tratar esses atos como “brincadeira”, “coisa de jovem” ou “exagero” é pavimentar o caminho para crimes ainda mais graves.
A sociedade falha quando se cala, mas falha ainda mais quando passa pano. Falha quando transforma criminosos em vítimas e vítimas em números. Falha quando prefere proteger sobrenomes, laços familiares ou reputações em vez de defender o direito básico de um ser vivo não sofrer tortura. O silêncio e a conivência são formas sofisticadas de violência.
Animais não têm voz, não registram boletins de ocorrência, não se defendem em tribunais. Dependem exclusivamente da responsabilidade humana — a mesma humanidade que, tantas vezes, os abandona, agride ou mata. Cada agressão ignorada é uma autorização para a próxima. Cada punição branda é um recado claro de que a vida animal vale pouco.
Enquanto Orelha, Abacate, o caramelo e tantos outros seguem sendo vítimas de uma crueldade sem sentido, resta à sociedade escolher de que lado está: do lado da empatia, da justiça e da vida ou do lado da violência travestida de normalidade. Não há neutralidade possível diante da barbárie. Defender os animais é, acima de tudo, defender o que ainda resta de humano em nós.
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