A rede de Zeferino
Fernando Cupertino
Na velha cidade existe ainda hoje uma irmandade religiosa, cujas origens remontam a meados do século XVIII. Trata-se da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos que, no passado mais longínquo, era uma confraria cujos membros provinham das famílias de maiores posses ou de reconhecido prestígio. Com o passar do tempo, tendo a mineração entrado em decadência, paulatinamente abriu-se para o ingresso da população menos favorecida econômica ou socialmente, exigindo-se, entretanto, conduta condizente com os preceitos da Santa Madre Igreja.
Zeferino almejara, desde rapazola, fazer parte da irmandade. Para tanto, chegada a maioridade, procurou logo dois irmãos já antigos para que, agindo como abonadores, endossassem seu pedido de admissão, a ser apreciado pelo Conselho e pela Mesa Diretora. Não houve grandes dificuldades, pois ele era um meia-colher* bem conhecido na cidade e que prestava serviços de pedreiro pouco qualificado a meio-mundo.
O pedido foi então submetido e, em reunião, lido pelo secretário da Mesa. Um de seus fiadores, que integrava o Conselho, tomou a palavra e assegurou aos presentes tratar-se de boa pessoa, cumpridor dos preceitos exigidos pela Igreja. Solteiro por convicção ou por necessidade, já que tinha poucos ganhos, incapazes de sustentar família, não vivia em pecado ou envolvido em escândalos. Assim, desfiou-se num rosário de argumentos em favor do candidato. Deu resultado, pois a votação secreta, como mandavam os estatutos, revelou uma aprovação quase por unanimidade. Cada votante recebia uma bola de gude branca, para aprovar, e outra preta, para rejeitar o candidato. Passava-se então um pequeno saco para colher os votos e, depois, outro para recolher a bola restante. Dessa forma, garantia-se o sigilo da votação.
Zeferino havia recebido 10 bolas brancas e uma preta. Quando lhe comunicaram o resultado, ele, todo alegre, não deixou de comentar:
– Essa bola preta deve ter sido o filho d’uma égua do Tomazinho dos Reis. Ele não gosta de mim, desde que quis me passar a perna no pagamento de um serviço de pedreiro que me empreitou. Como ameacei logo chegar a peia nele, o pagamento saiu, mas, depois disso, passou a falar mal de mim e do meu serviço para Deus e todo mundo…
– Isso não importa, Zeferino – interrompeu o Coronel Anacleto, um dos que haviam abonado o seu nome. – Ninguém sabe quem votou sim ou não. O fato é que, de agora em diante, você é da irmandade.
Passaram-se os anos. Zeferino, por conta de uma queda da escada, ficara coxo. Isso, porém, não o impedia de trabalhar, mesmo mancando. Pouco a pouco, foi adquirindo a confiança e amizade, tanto do zelador da irmandade, quanto do sacristão, de modo que, nas procissões, passou a ser um dos que distribuíam as velas para os fiéis. De vez em quando, havia alguma reclamação sobre seus modos grosseiros e cara de poucos amigos, mas isso nunca deu em nada. Afinal, o povo sempre reclama mesmo…
Já sexagenário, integrou a chapa que naquele ano vencera as eleições para o Conselho da Irmandade. Assim, orgulhava-se de ser suplente de conselheiro e nunca deixava de comparecer às sessões. Numa delas, à noite, com uma iluminação precária e o cansaço de um dia exaustivo de trabalho, Zeferino cochilou como nunca. Chegou mesmo a roncar, o que despertou o riso contido dos presentes, para não causar constrangimentos. Terminada a reunião, um dos participantes, que com ele tinha amizade e intimidade para brincadeiras, tomou-o pelo braço e lhe disse:
– Zeferino, há uma coisa importante que eu preciso lhe dizer…
– Pois não, Seu Crescêncio. O que é?
– Coisa simples… da próxima vez, traz a sua rede. Assim, você poderá dormir mais tranquilo na reunião.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
(*meia-colher: servente de pedreiro)
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