Pesquisadores contestam veracidade de relíquias judaicas ocultas em casarão dos Buenos na Cidade de Goiás. É fake news
Giovanna Campos e Euler de França Belém
Seria bom que um arquiteto, um historiador, outras pessoas especialistas pudessem visitar a fazenda, ver se a construção é do século XVIII (Bartolomeu faleceu em 1740), pesquisar e ver se as terras pertenceram ao Anhanguera etc. Agora, se não permitem visitar a fazenda e analisar os artefatos, como se pode avaliar isso? Então por que noticiaram o achado? Nesse caso uma pesquisa in loco é fundamental. É o que posso dizer. Não tenho como emitir opinião sobre algo que não permitem ser visto. Se realmente isso se ligar ao Anhanguera, que bom, que beleza! Mas é preciso facultar aos entendidos a pesquisa para corroborar ou não tudo isso. A presença de sefarditas é conhecida em Goiás no século XVIII, mas não somente aqui, eles estavam em diversos lugares da colônia. Para dizer que Goiás era um reduto de sefarditas é preciso mais que artefatos que não são passíveis de serem estudados. É preciso mergulhar na documentação da época e muito mais. — Antônio Caldas, pesquisador e professor da PUC-Goiás
Uma suposta descoberta de relíquias judaicas ocultas em um antigo casarão atribuído à família Bueno, na Cidade de Goiás, tem gerado repercussão nas redes sociais, mas encontra forte resistência entre historiadores, genealogistas e instituições de referência no estudo da história goiana. Pesquisadores ouvidos pelo Jornal Opção alertam que, até o momento, não há qualquer comprovação científica ou documental que sustente a narrativa, levantando a hipótese de que o caso possa se tratar de fake news ou de uma construção fantasiosa sem lastro acadêmico.
O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) informou, por meio de seu representante Jales Mendonça, que desconhece completamente o assunto. Segundo ele, não há registros, comunicações oficiais ou pedidos de análise formal envolvendo a suposta descoberta. A ausência de informações nos arquivos institucionais e o silêncio de órgãos oficiais reforçam o ceticismo da comunidade acadêmica.
Para o ex-professor-doutor da Universidade Federal Nilson Jaime — pesquisador do bandeirantismo —, a forma como a história veio a público já compromete sua credibilidade. “Descobertas históricas não são anunciadas dessa maneira. O pesquisador sério publica, assina suas teses, apresenta documentos, submete o material ao crivo dos pares. Um ‘pesquisador que não quis se identificar’ não existe no meio acadêmico”, afirma.
Nilson Jaime contextualiza o debate a partir da formação histórica do Brasil Central. Segundo ele, os bandeirantes que chegaram a Goiás descendiam majoritariamente dos mamelucos paulistas, oriundos da linhagem de João Ramalho e do cacique Tibiriçá, considerados fundadores da São Paulo colonial. “Há autores que levantam a hipótese de João Ramalho ser cristão-novo. Se isso fosse confirmado, não seria novidade encontrar essa origem em Goiás. Mas isso é muito diferente de afirmar a existência de um reduto judaico estruturado no território goiano.”
O pesquisador ressalta que extensos estudos genealógicos realizados por ele, por Jarbas Jaime e por outros genealogistas não identificaram, nas famílias que se estabeleceram em Goiás, a manutenção de práticas judaicas clandestinas. “Se o medo era a Inquisição, por que essa tradição não persistiu após o seu fim? Goiás não desenvolveu tradição judaica, como ocorreu em outras regiões. As cidades históricas não apresentam esse traço”, observa.
Para Nilson Jaime, mesmo que algum indivíduo de origem cristã-nova tenha participado da ocupação do território, isso não altera a narrativa central da colonização. “Eles vieram atrás de ouro e de indígenas. O fato de alguém ser cristão-novo não muda a história de Goiás. Dizer que isso ‘reescreve’ a história é absolutamente inapropriado.”
A presidente do Instituto Bertran Fleury, Graça Fleury, também se posiciona com extrema cautela. Segundo ela, qualquer parecer só pode ser emitido após uma verificação técnica rigorosa. “Para existir esse tipo de material, é imprescindível que a casa seja, de fato, do século XVIII. Um arquiteto especializado em arquitetura colonial consegue identificar isso imediatamente. Se a edificação for posterior, a narrativa cai por terra.”
Graça Fleury defende que a apuração envolva, obrigatoriamente, um arquiteto especialista em arquitetura colonial e um historiador reconhecido, com acesso direto ao imóvel e aos supostos objetos. “Se não querem mostrar, não há prova. Sem prova, não se pode tratar isso como verdade jornalística.” Ela acrescenta que já ouviu referências esparsas à fazenda mencionada, mas nunca associadas a qualquer achado histórico relevante.
A presidente do Instituto Bertran Fleury ressalta que vários pesquisadores consultados — entre eles historiadores locais — também afirmaram desconhecer completamente o caso. “Todo mundo que foi procurado disse não saber de nada. Isso é, no mínimo, estranho. Se fosse algo sério, o alarde já teria sido feito pelos canais corretos.”
Para os especialistas, o episódio reforça a necessidade de responsabilidade na divulgação de temas históricos sensíveis. “Se for verdade, será extraordinário e merece estudo profundo. Se for mentira, também é importante desmentir, para não se criar fatos inexistentes”, conclui Graça Fleury.
Enquanto não houver acesso aos supostos artefatos, laudos técnicos, datação precisa da edificação e autoria clara das pesquisas, a chamada “descoberta” permanece no campo da especulação. Para a comunidade acadêmica goiana, a história da Cidade de Goiás segue ancorada em documentos, métodos científicos e no rigor que o passado exige.
Doutor em História, Bento Fleury disse ao Jornal Opção: “Achei um pouco confuso [o texto postado nas redes sociais]. Deverá ter mais desdobramentos e pesquisa para um conceito melhor”.
O que diz Murah Rannier Peixoto Vaz
Sou membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e interajo com diversas entidades culturais e históricas do Estado e ninguém ouviu falar de uma descoberta como essa. Sendo verdade, estaria sendo alardeada e anunciada pelos quatro cantos.
Os órgãos do governo federal e estadual estariam a par e esses objetos seriam encaminhados para um museu, pois, por lei, seriam de propriedade da União. Reservo-me a desacreditar da informação e a tê-la como fake até que se prove o contrário.”
O que diz o pesquisador Yuri Baiocchi
“É mentira de cabo a rabo.” Yuri Baiocchi diz que é preciso ter cuidado com os mitômanos, que usam a internet para espalhar fake news.
Texto apontado como fake news que circula nas redes sociais
Airton Bueno
19 de janeiro às 13:32
DESCOBERTA HISTÓRICA: Relíquias judaicas ocultas em casarão dos Bueno podem reescrever a história de Goiás
GOIÁS VELHO – Uma descoberta acidental durante a restauração do casarão da histórica Fazenda Ruá está abalando os alicerces da história colonial brasileira. Escondidas atrás de uma parede falsa, selada há mais de duzentos anos, foram encontradas relíquias sagradas do judaísmo que pertenceriam à linhagem de Bartolomeu Bueno, o Anhanguera.
O Achado no Coração do Sertão
A descoberta ocorreu durante uma reforma estrutural na propriedade que pertence à família Bueno desde sua fundação. Ao removerem uma camada de reboco antigo, operários encontraram uma porta camuflada que dava acesso a um armário de madeira de lei preservado.
No interior do compartimento, historiadores preliminarmente identificaram objetos de valor inestimável:
Um Sefer Torá: Rolo da lei judaica, escrito à mão em pergaminho.
Uma Menorá: O candelabro de sete braços, símbolo central da fé judaica.
Lamparinas de Azeite: Utilizadas em rituais específicos, datadas do século XVIII.
Documentos em Hebraico: Manuscritos que podem detalhar a vida religiosa clandestina da família.
A Confirmação das Teses de Anita Novinsky
A descoberta dá peso material às pesquisas da renomada historiadora Anita Novinsky (1922-2021), que dedicou décadas ao estudo dos cristãos-novos no Brasil. Novinsky sempre defendeu que Bartolomeu Bueno possuía origens judaicas e que muitos bandeirantes se embrenhavam no sertão para fugir da vigilância da Inquisição em Portugal e no litoral brasileiro.
O achado prova que a antiga Vila Boa de Goiás não foi apenas um posto avançado de mineração, mas um reduto secreto de judeus sefarditas, que mantinham sua fé sob o manto do catolicismo oficial.
Mistério e Resistência da Família
Apesar da magnitude do achado, o clima é de tensão. A família Bueno, atual proprietária da Fazenda Ruá, mantém-se em silêncio absoluto. Fontes locais indicam que os herdeiros não permitem o acesso de pesquisadores externos e se recusam a autorizar a exposição das peças, alegando tratar-se de herança privada e íntima.
“Estamos diante do maior elo perdido da história de Goiás. Se essas peças forem de fato do período da fundação, a narrativa oficial sobre a colonização do Brasil Central terá de ser inteiramente revisada”, afirma um pesquisador da UFG que preferiu não se identificar.
Impactos Imediatos
Revisão Histórica: O papel dos cristãos-novos na expansão territorial brasileira ganha prova material incontestável.
Turismo Religioso: A Cidade de Goiás pode se tornar um novo ponto de interesse para a comunidade judaica internacional.
Arquivos Históricos e Geográfico do Estado de Goiás.
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