Bolsonarismo cortou a cabeça de Vera Magalhães no Roda Viva, da TV Cultura
O programa “Roda Viva” é o mais conhecido e polêmico da TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta. Muitas de suas entrevistas repercutem em jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão.
Vários jornalistas ancoraram o “Roda Viva” e, a seguir, estão listados, em ordem alfabética: Andresa Boni, Augusto Nunes, Carlos Eduardo Lins e Silva, Daniela Lima, Heródoto Barbeiro, Jorge Escosteguy, Lilian Witte Fibe, Marília Gabriela, Mario Sergio Conti, Matinas Suzuki, Paulo Markun, Ricardo Lessa, Rodolfo Konder, Rodolpho Gamberini (o primeiro apresentador, entre 1986-1987), Roseli Tardelli (primeira mulher a apresentar o “Roda Viva”, em 1994) e Vera Magalhães.
Os mais longevos na apresentação foram Paulo Markun (dez anos), Augusto Nunes (oito anos) e Vera Magalhães (seis anos).
Há, portanto, um histórico de rodízio na ancoragem do “Roda Viva” e Vera Magalhães, que não teve o contrato renovado para 2026, foi uma das mais longevas no seu comando.
Firme e doce ao mesmo tempo, Vera Magalhães figura entre os melhores âncoras do “Roda Viva”. Nunca perdeu o controle do programa. Calma, tranquila e bem informada, sempre conseguiu equacionar os conflitos típicos de programas como o “Roda Viva” (como entrevistados turrões).
Diferentemente de alguns entrevistados, Vera Magalhães não se comportava como tiete, daquelas que são experts na arte de “levantar a bola” para outros fazerem o gol. Sempre manteve a instância crítica, de maneira respeitosa.
Vera Magalhães sabe dizer coisas duras — e necessárias — sem elevar a voz. Também sabe mudar o eixo da entrevista quando está ficando modorrenta e monotemática. Trata-se de um jornalista que, egressa da imprensa, deu-se bem na televisão. Até sua voz melhorou com o tempo.
Por que o contrato de Vera Magalhães não foi renovado? A história do rodízio é plausível. A diretora-presidente da TV Cultura e da Fundação Padre Anchieta, Maria Ângela de Jesus, disse à “Folha de S. Paulo”: “O ‘Roda Viva’ é o programa mais longevo da Cultura. Em 40 anos, já teve 14 apresentadores [pelas contas do Jornal Opção, dezesseis). Essa oxigenação faz parte do perfil da atração”.
Uma pedra no caminho — o bolsonarismo
Insista-se: o histórico das mudanças sugere que a explicação de Maria Ângela de Jesus tem lógica. Mas há, claro, uma pedra no caminho — o bolsonarismo.
O bolsonarismo move campanha contra Vera Magalhães, e outras jornalistas, como Patrícia Campos Mello, Daniela Lima, há anos. Chegou a espalhar que seu salário para apresentar o “Roda Viva”, que vai ao ar na segunda-feira, era de 500 mil reais. Puro fake news. Na época, recebia 22 mil reais.
São Paulo é governado por Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Trata-se de um político bolsonarista, sobretudo é pressionado pelo bolsonarismo por não ser considerado suficientemente radical, ou seja, é de direita, mas não de extrema direita.
Num ano eleitoral, com ou sem pressão, Tarcísio de Freitas possivelmente decidiu “cortar” a cabeça de Vera Magalhães — que é vista como jornalista de esquerda (na verdade, é jornalista e, por isso, faz críticas a políticos de direita, de esquerda e de centro; não alivia para ninguém).
Ex-diretor de Jornalismo da TV Cultura, Leão Serva foi taxativo: a saída de Vera Magalhães resulta de um “acordo com [o] demo”.
“O vampiro só ataca quem o convida”, frisa Leão Serva. “A burrice marca as gestões bolsonaristas em cultura.” O jornalista está criticando a gestão de Tarcísio de Freitas.
Quem vai substituir Vera Magalhães? Da velha e boa escola da revista “Veja”, Thaís Oyama é um excelente nome. Mas o bolsonarismo a aceitará? Se depender estritamente do bolsonarismo, o jornalista adequado é Augusto Nunes (ou Guilherme Fiuza).
A Globo News e Vera Magalhães
Em seis anos, Vera Magalhães ganhou experiência na televisão. Por isso, está pronta tanto para apresentar quanto para comentar fatos políticos.
A GloboNews tem um time de comentaristas políticos de qualidade. Maria Cristina Fernandes é a minha preferida. Porque informa e comenta bem. Sem firulas e gracinhas.
Gerson Camarotti, Ana Flor, Malu Gaspar (uma das mais notáveis repórteres do país, por isso desagrada tanto a direita quanto a esquerda), Flávia Oliveira (craque em economia), Demétrio Magnoli (autor das análises mais abrangentes), Joel Pinheiro (que está se firmando) e André Trigueiro (muito bom quando o tema é meio ambiente) são comentaristas críveis e bem-informados.
Vera Magalhães se encaixaria como uma luva na GloboNews, tanto no “Em Pauta” quanto em algum telejornal. Pode ser a “peça” que falta à engrenagem do canal de notícias do Grupo Globo.
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