Os 47 segundos finais de Maduro como ditador
Fortaleza militar num vale em Caracas. Madrugada de sábado, 3 de janeiro de 2026.
Nicolás Maduro – Os venezuelanos estão felizes demais. Sinto daqui as vibrações…
Cilia Flores – E esse barulho, Nicolás?
N – A alegria é ruidosa, minha companheira Cilia!
C – Não brinque. Ouça o barulhão [Puxa a orelha do marido]. Parece que são aviões, helicópteros, sei lá, alguma coisa que voa.
N – [Vira de lado, nem aí para a preocupação da mulher] É a imaginação da classe operária indo ao paraíso.
C – [Atenta aos sons no lado de fora] Deve ser porque passamos essas últimas 3 horas orando para São Hugo…
N – Se não fôssemos ateus de pai, mãe e parteira, seriam 8 horas todo dia só para São Chávez…
C – Mais as 8 de São Fidel…
N – [Ainda fazendo troça] Essas estão acabando com meus joelhos! Também, com a exigência de fazer a oração inteira com um guarda cubano nos ombros… E o meu foi medalha de ouro no boxe nos Jogos Internos da Juventude Castrista, modalidade peso-pesado absoluto…
C – [Interrompendo] São tiros?
N – Por isso a guarda revolucionária cubana custa mais que os médicos, treina dia e noite.C – [Encosta-se no marido e sussurra] Parece que pousaram helicópteros…
N – [Exaltado] Desde moço sou famosíssimo por provocar essas sensações!
C – [Ainda apreensiva] Os seguranças sumiram [Fala muito baixo]. Cadê Luisito? Cadê Yañez? Cadê todo mundo?
N – [Imitando a abertura de “Hamlet” que viu num foro em São Paulo] Quem está aí? Pare e diga o nome! Bernardo? Francisco? Vão deitar-se! A guarda está calma, nem rato buliu aqui na base, ao contrário de Miraflores, infestada de insetos.
C – [Ignorando a ironia do marido] Estão desrespeitando nossa privacidade.
N – [Continua a fazer humor com “Hamlet”] Se virem por aí Marcelo e Horácio, diga-lhes que se apressem, pois minha senhora se aflige. [Faz concha com as mãos e junta-as às orelhas] Julgo ouvi-los. [Ainda irônico] Não se aproximem. Quem está aí?
C — [Coça a cabeça, aflita] Serão fantasmas dos mortos nos protestos pelas eleições fraudadas? É a alma de alguém assassinado em nome do bolivarianismo? Ó, é real! Escutei algum corpo caindo.
N – Liga a luz.
C — [Batendo no interruptor] Não temos energia!
N —Temos, sim![Dá um soco na tomada]
C —Sem luz! Sem segurança![3 homens entram no cômodo conversando num espanhol com sotaque de Miami]
N — [Percebendo que a coisa é séria] Alto lá! Algum carregamento não chegou?C — [Levantando-se] Não encoste a mão em mim!
N — [Já de pé] Chame o seu chefe que eu quero falar com ele. Agora!
C –Vocês sabem quem somos nós?
N –Estão trazendo algum recado do Brasil? Ou malas do Irã? Ou ordens de Pequim? Ou saudações de Moscou?
C –Nic, ele tá me algemando!
N –Pare com isso! Meu poder é absoluto e eu ordeno que pare! Já mudei o Natal para outubro, posso muito bem mudar a data de sua morte para hoje! [Os guardas se aproximam] Não passe a mão em mim! [Algemas nos pulsos] Não passe a perna em mim! [É derrubado para receber tornozeleiras e correntes]
C – [Determina com veemência] Saiam daqui agora![Os militares saem com ambos e os colocam num helicóptero]N –Se vocês forem norte-americanos, digam a mister Trump que eu quero negociar! Avisem pra ele que minha vice não é confiável e a oposição, muito menos.
C –Nic, nem pense em se render aos ianques! [Um militar a segura, outro coloca-lhe fones e óculos] Niiiiiiiiiiiiiiiiiiiic!
N – [Já dentro do helicóptero, também sem ver nem ouvir] Digam ao presidente Trump que me mantenha no cargo em troca da maior reserva de petróleo do mundo. Passo tudo pra vocês! Não quero uma gota sequer!
C – [No porta-aviões USS Gerald Ford, mas sem saber onde está] Se é alguma brincadeira, também vou apelar para “Hamlet” e com dor abraço a sorte. Tenho sobre este reino alguns direitos…
É interrompida por uma coronel da Força Delta, que a encaminha ao avião reservado para levar o casal a julgamento em Nova York e, em homenagem aos prisioneiros, dirige-se aos colegas com outro trecho da peça de Shakespeare: “Ponhamos pressa na execução de tudo para evitar novas desgraças”.
Os militares olham do Mar do Caribe em direção à costa da Venezuela e a oficial encerra com a quadrinha:
“Esta vista é própria
Só dos campos de batalha
Mas este lugar merece
Governo menos canalha”.
Demóstenes Torres, 64 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.
O post Os 47 segundos finais de Maduro como ditador apareceu primeiro em Jornal Opção.