Nome mais provável para substituir a ministra Sônia Guajajara, que deve deixar o cargo até o início de abril para disputar a reeleição à Câmara dos Deputados, o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Luiz Eloy Terena, chega à reta final da sucessão após atravessar meses de tensão com lideranças de sua própria base em Mato Grosso do Sul. Entre setembro e dezembro de 2025, decisões administrativas, disputas políticas locais e a possibilidade de uma candidatura própria à Câmara provocaram uma ruptura inédita entre o dirigente e parte do movimento indígena estadual. Em reuniões com parlamentares do PT, caciques chegaram a pedir formalmente sua exoneração e a defender que ele fosse excluído da sucessão ministerial. O impasse foi posteriormente superado após negociações diretas com as comunidades. Hoje, lideranças afirmam que Eloy voltou a contar com apoio majoritário e consideram sua eventual posse um marco histórico para a representação indígena sul-mato-grossense no governo federal. “Pela primeira vez teremos um ministro indígena de Mato Grosso do Sul que nasceu da base do movimento”, afirma Valcélio Terena Figueiredo, ex-coordenador do conselho da etnia no Estado e atual coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em Brasília. Do movimento ao poder A trajetória recente de Eloy sintetiza o dilema enfrentado por uma nova geração de lideranças indígenas que ingressou nas estruturas do Estado: como preservar legitimidade junto às bases enquanto se negocia dentro de um sistema político dominado por forças historicamente adversárias às pautas indígenas. Advogado e referência na contestação jurídica da tese do marco temporal no Supremo Tribunal Federal, Eloy ganhou projeção nacional como representante técnico e político do movimento indígena. Ao assumir posição estratégica no governo federal, passou a lidar com pressões institucionais, partidárias e regionais que extrapolam a lógica da militância. Essas tensões se amplificam em Mato Grosso do Sul — Estado com a terceira maior população indígena do país e um dos cenários mais agudos de conflitos fundiários, marcado por assassinatos recorrentes de lideranças Guarani Kaiowá. A política local é fortemente influenciada pelo agronegócio, enquanto as comunidades se mobilizam pela retomada de antigos territórios, reivindicam demarcação e proteção contra a violência. Crise aberta em 2025 Foi nesse contexto que explodiu a crise no fim de 2025. Em reunião realizada em novembro, representantes indígenas pediram à bancada federal do PT no Estado a exoneração de Eloy do cargo de secretário-executivo e sua exclusão da disputa pelo comando do ministério. Em vídeo do encontro, o cacique Ageu Terena criticou duramente a condução da política indigenista federal. “Nossos irmãos Guarani e Kaiowá estão morrendo, sendo fuzilados, enquanto se passa a imagem de que está tudo bem.” Outro representante do Conselho do Povo Terena rejeitou de forma categórica a possibilidade de Eloy assumir a pasta: “Não admitiremos, sob hipótese alguma, que ele assuma o cargo de ministro.” As críticas ocorreram em meio à escalada de conflitos fundiários no sul do Estado e à percepção de lentidão nas respostas do governo federal. Pressão política O encontro contou com a presença de parlamentares estaduais e federais petistas, entre eles o deputado Vander Loubet, presidente do partido em Mato Grosso do Sul e pré-candidato ao Senado. No vídeo, Vander e a deputada Camila Jara reconheceram o descontentamento e afirmaram que levariam as reivindicações ao Palácio do Planalto, cobrando também maior presença de políticas públicas nos territórios indígenas. O pedido de exoneração teria sido encaminhado à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. “O Eloy não nos representa e não faz política conosco. Se articula muito mais com o governo do Estado”, afirmou Vander, que classificou o estilo do secretário como autoritário e arrogante. O deputado também criticou a ministra Sônia Guajajara: haveria “revolta e descontentamento com a forma com que Eloy e a própria ministra vêm conduzindo o Ministério”. A mobilização evidenciou a capacidade de pressão da base indígena organizada no Estado, historicamente articulada em momentos de crise. Ruptura por decisões e alianças Segundo Ageu Terena, a insatisfação teve origem em decisões consideradas unilaterais e na percepção de distanciamento das comunidades. “Faltou consulta prévia às lideranças”, afirmou, citando mudanças na coordenação regional da Funai em Mato Grosso do Sul sem comunicação à presidente do órgão, a ex-deputada Joenia Wapichana. Outro fator foi a aproximação política com setores ligados ao agronegócio durante o período em que Eloy cogitava disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. “Isso preocupou porque o agro é historicamente contrário às pautas indígenas”, disse. Até o final do ano passado, quando decidiu não concorrer, Eloy aproximou-se do governador Eduardo Riedel, que lidera o PP no Estado ao lado da senadora Tereza Cristina, além de dirigentes do setor agropecuário historicamente em conflito com o movimento indígena. Para lideranças, o episódio expôs o risco de cooptação política quando representantes do movimento passam a atuar dentro das instituições. Diálogo e acomodação A crise começou a arrefecer no fim de 2025, após visitas de Eloy às comunidades e reuniões com lideranças de diferentes regiões do Estado. Em entrevista posterior, Ageu afirmou que, pelo menos para os Terena, o cenário hoje está pacificado. “Agora está tudo normalizado. Houve revolta no final do ano passado, mas atualmente está tudo OK.” Segundo ele, a explicação apresentada pelo secretário foi decisiva para a mudança de posição. “Ele mostrou que os projetos dependem de trâmites e recursos públicos; não é algo que se resolva de um dia para o outro.” O cacique relatou ainda que Eloy reconheceu erros políticos. “Ele pediu desculpas e disse que nossa bandeira não é de direita nem de esquerda, é a bandeira do movimento indígena.” Apoio majoritário Atualmente, afirma Ageu, a maior parte das lideranças voltou a apoiar o dirigente. “Se pensarmos no bem coletivo, estamos bem representados no governo federal.” Ele admite, porém, resistências pontuais. “Sempre haverá alguma liderança descontente, mas é minoria.” A eventual posse é vista como conquista simbólica e política para o Estado. “Seria uma honra. Ele é preparado, conhece a base e é daqui.” Ministério novo, desafios antigos Criado em 2023, o Ministério dos Povos Indígenas ainda enfrenta limitações estruturais, segundo Valcélio. “O ministério é novo e precisou montar toda a estrutura antes de executar projetos.” Entre os avanços citados estão processos de demarcação e homologações em andamento, embora a lentidão continue sendo alvo de críticas. O MPI possui um dos menores orçamentos da Esplanada para 2026: R$ 1,31 bilhão — considerado insuficiente para gerir cerca de 13% do território nacional, onde vivem 391 etnias e aproximadamente 1,69 milhão de indígenas. A nova pasta homologou 20 terras indígenas até o final do ano passado, rompendo um período de cinco anos sem avanços, mas ainda há 70 territórios em fase de homologação e outros 304 a demarcar. Mato Grosso do Sul concentra entre 110 mil e 120 mil indígenas e apresenta uma das menores proporções de terras regularizadas do país. Lideranças estimam que mais de 180 áreas aguardam demarcação envolvendo diferentes povos. Esse cenário mantém o Estado no centro das disputas nacionais sobre política indigenista. Pragmatismo eleitoral A possível candidatura de Eloy à Câmara também alimentou tensões internas. Considerado competitivo, ele poderia contar com apoios fora do campo tradicional do movimento indígena. Para dirigentes indígenas, a busca por alianças é vista como parte inevitável do sistema político. “Quem não tem recursos precisa buscar apoio para disputar eleição. É o jogo da política”, afirmou Valcélio, eleitor declarado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas que convive com forte oposição na própria família. Seu irmão, o vereador Otacir Pereira Figueiredo, conhecido como Gringo , presidente da Câmara Municipal de Sidrolândia, foi eleito pelo PP.. Com a possibilidade de assumir o ministério, a candidatura a deputado federal foi abandonada — movimento interpretado como tentativa de preservar capital político e institucional, evitando uma inflexão que poderia enfraquecer o indigenismo e a pauta indígena no Estado. A ascensão como ministro depende, é claro, de como Lula interpretou o zigue-zague político do secretário-executivo do MPI.