Assim na Terra, romance do italiano Davide Enia, trata o boxe com delicadeza e lirismo
Mariza Santana
Quando se pensa em um romance cujo enredo se desenvolve em torno do pugilato, vem à imaginação do leitor uma narrativa que contempla apenas um ringue cercado de torcedores barulhentos e dois homens se enfrentando, com muitos golpes, gingas e sangue. Mas o livro “Assim na Terra” (Alfaguara, 312 páginas, tradução de Denise Bottmann e Federico Carotti), do escritor italiano Davide Enia, de 51 anos, vai muito além dos clichês.
A obra é repleta de delicadeza e lirismo, mesmo com tantos personagens envolvidos com o boxe em uma Palermo, na Sicília, tomada pela violência (trata-se simplesmente da terra da Cosa Nostra). “Assim na Terra” intercala as histórias de Davide, o narrador; do seu avô Rosário — que foi feito prisioneiro na Segunda Guerra Mundial (1939-1945); e de seu pai, o lutador de boxe denominado Paladino, que morreu em um acidente de moto antes de o filho nascer.
Também são importantes no desenrolar dos fatos o tio Umberto, ex-lutador de boxe que perdeu a luta que o sagraria campeão nacional da modalidade; o amigo de Davide, Gerruso, que perdeu um pedaço do dedo em um enfrentamento de meninos; e a prima dele, Nina, paixão do protagonista.
Como cenário, Palermo, capital da Sicília, terra natal do autor. A cidade é descrita como um local inicialmente imerso na pobreza, logo após o final da guerra, e anos depois, já começando a ser dominado pelos mafiosos.
O clima de insegurança é sugerido a todo o momento, como neste trecho do romance: “Era o início dos anos 1950 e a cidade ainda fedia como na época da guerra, era suja e não havia trabalho. Consolidava-se a verdadeira força emergente: a Máfia”.
Embora órfão, Davide havia herdado do pai o talento para o pugilismo. Isso ficou evidente quando, aos 9 anos de idade, interferiu em uma briga de garotos para salvar Gerruso, que estava defendendo a prima Nina, de ser massacrado por um bando de meninos.
Foi um claro episódio do que hoje chamamos de bullying (comportamento agressivo, intencional e repetitivo, caracterizado por um desequilíbrio de poder, visando intimidar, humilhar ou agredir uma pessoa ou grupo mais vulnerável). Esse acontecimento foi primordial para o desenrolar do enredo.
Isso porque a atitude do garoto chamou a atenção do tio Umbertino, que passou a treiná-lo, em busca de resgatar o sonho de família de ter um campeão nacional de boxe.
O romance narra ainda os momentos difíceis vividos pelo avô Rosário em um campo de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial, as aventuras amorosas de tio Umbertino e outros eventos, que vão intercalando tempo e personagens, numa perfeita carpintaria literária, o que eleva a qualidade da obra.
“Assim na Terra” é daqueles romances que não prometem tanto, mas entregam muito, comprovando a força narrativa do autor parlemitano.
Escritor nasceu na Palermo da Cosa Nostra
O escritor e dramaturgo David Enia nasceu em 1974 em Palermo e é licenciado em Literatura Contemporânea pela Universidade Católica de Milão.
Além de “Assim na Terra”, o outro livro de sua autoria publicado no Brasil é “Notas Para um Naufrágio”, que aborda a crise migratória em Lampedusa, uma ilha italiana no Mar Mediterrâneo.
Mariza Santana, jornalista e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.
[E-mail: marizassantana@gmail.com]
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