Esquerda petista se movimenta, mas ainda falta foco
Na última semana de 2025, a direção estadual do Partido dos Trabalhadores anunciou que a chamada chapa progressista já reúne seis pré-candidatos ao Governo de Goiás. A informação foi divulgada pela presidente estadual da sigla, a deputada federal Adriana Accorsi, que listou Edward Madureira, Valério Luiz, Iure Castro, Gilvane Felipe, Professor Jerônimo e o ex-governador José Eliton como nomes colocados na disputa pelo Palácio das Esmeraldas.
“Também conseguimos avançar na formação da chapa proporcional da federação, que está praticamente completa”, afirmou a nota divulgada. Após fechar a lista dos pré-candidatos, a tarefa agora é verificar se estão contempladas todas as regiões, os movimentos sociais, o número de mulheres candidatas, entre outros critérios exigidos pelo regimento.
É a primeira vez que o PT goiano assume oficialmente, e de forma coletiva, a existência de uma chapa em formação. Até então, o partido vinha tratando o tema com cuidado excessivo, quase como quem evita dizer em voz alta algo que ainda não decidiu se acredita. No fim de novembro, Adriana havia divulgado nota confirmando apenas Edward Madureira como pré-candidato, elogiando seu perfil técnico e político. Fora isso, o restante do debate aparecia de maneira difusa, sempre em conversas de bastidores ou respostas evasivas à imprensa.
O anúncio feito no apagar das luzes de 2025, porém, não trouxe exatamente novidades. Edward já estava posto; José Eliton conversava com o PT há tempos; Gilvane Felipe também já figurava na bolsa de apostas. O que realmente foge do script são os nomes de Iure Castro, recém-chegado à presidência do Cidadania, partido que até ontem orbitava o campo tucano (era federado com o PSDB), e de Valério Luiz, mais lembrado até aqui como possível candidato a deputado. Ou seja, mais ampliação de leque do que definição de rumo.
Na prática, a divulgação da lista parece ter servido mais para conter a ansiedade de apoiadores do que para reposicionar o partido no jogo. A mensagem foi clara: há nomes, não estamos parados. O problema é que isso diz pouco sobre estratégia e quase nada sobre viabilidade eleitoral.
O PT sempre foi um partido que fez questão de marcar território. Desde os anos 1980, construiu sua identidade a partir do protagonismo, da ideia de que a esquerda se organiza em torno de uma cabeça de chapa petista. Abrir mão disso nunca foi uma opção confortável para a legenda, movida tanto por convicção política quanto por um certo apego ao próprio tamanho.
O cenário atual, no entanto, é outro. O desgaste acumulado desde 2013, o trauma do impeachment, a perda de espaço nos Executivos estaduais e municipais e a fragmentação da esquerda em torno de outras siglas reduziram o peso do PT, especialmente no plano regional. Em Goiás, essa perda de centralidade é ainda mais evidente, e o partido parece não ter elaborado completamente esse novo lugar que ocupa.
Mesmo olhando para 2026 e se movimentado para o pleito (disso não há dúvida), o PT dá sinais de que saiu atrasado. Enquanto outros grupos começaram a se organizar ainda em 2024, quando as articulações, de fato, tiveram início, a legenda agora corre para recuperar terreno. A indefinição se reflete na base, que segue sem saber quem defender, em quem apostar e, sobretudo, por quê. A impressão é de que o partido aguarda o surgimento de um nome milagroso, capaz de liderar pesquisas e resolver o impasse sem exigir decisões duras.
No campo proporcional, o quadro é semelhante. Enquanto partidos de direita e centro-direita já travam disputas abertas pela vaga ao Senado, no PT o clima é de apatia. Há conversas, há insinuações, mas falta movimento real. Falta conflito, e conflito, em política, costuma ser sinal de vida.
Claro que, como se sabe, boa parte da articulação e as decisões de peso acontecem longe do público. Ainda assim, quando uma apontada hesitação vira padrão e a falta de foco se repete, a questão deixa de ser tática e passa a ser problema, e um baita problema. Para o PT goiano, o desafio não é apenas escolher um nome para 2026, mas decidir que papel pretende desempenhar nessa eleição.
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